O carnaval dos “leques” e do “Meu bilu bilu bilu bilu”

Montagem: arquivos Google

Por Luiz Antonio Morais

O Carnaval ainda é a maior festa deste país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. No entanto, estas linhas vão tratar de alguns fenômenos e tendências que envolvem esta festa, tradicionalmente ligada ao catolicismo, pois a data marca a despedida da carne (“carnis levale”) e os excessos antes do período de jejum e, na cultura moderna, simboliza liberdade, música e diversidade. A festa é celebrada anualmente entre fevereiro e março, antecedendo a estação litúrgica da Quaresma.

No Maranhão, onde a Prefeitura de São Luís e o Governo do estado travam uma guerra cultural ou anticultural, muito longe das tradicionais guerras de maisena, o cenário musical, as estruturas de som a as atrações contratadas a peso de ouro, agora contrastam com as dificuldades das cidades do interior, cujos carnavais foram esvaziados pelo poder bélico financeiro da capital, e cujos cofres podem bancar artistas de renome nacional.

Atrações à parte, o lado democrático do carnaval também passou a contemplar até as comunidades que preferem o retiro espiritual, pois os palcos também estão sendo montados com atrações de músicas gospel, ou seja, todos podem dançar e se divertir.

E, neste cenário de diversidade, urge falar sobre a relatividade musical que agora impera em todos os cantos do país. Provavelmente, muitos leitores nunca mais ouvirão letras irreverentes que marcaram as marchinhas dos antigos carnavais, entre elas, “olha a cabeleira do Zezé, será se ele é”, “é dos carecas que elas gostam mais”, “a pipa do vovô não sobe mais”, “Maria sapatão, sapatão, de dia é Maria, de noite é João”, “nega do cabelo duro, que não gosta de pentear”, dentre outros clássicos, todos censuradas pelos debates corporativistas sobre ideologia de gênero, bullying ou estereótipos negativos sobre a estética negra.

Nesse caldeirão musical em que se transformou o carnaval maranhense, onde o samba e o pagode ainda resistem, as marchinhas viraram peças de museu e o axé music perdeu a força, óbvio que a porteira se abriu para outros gêneros como o forró, tecnobrega, arrocha, funk, sertanejo, música eletrônica, rock, MPB, piseiro ou qualquer outro barulho musical que agrade ou agrida os nossos pobres ouvidos. Tudo virou show de carnaval!

E para ilustrar esta salada carnavalesca, este ano, no circuito Vem pro Mar, na Av. Litorânea, o show da espevitada cantora Anita – para aqueles que gostam, -, atraiu quase a população inteira de São Luís, segundo a PM. Foi, de longe, o show mais lotado do carnaval na ilha. E, quem olhava para os lados, se surpreendeu com um barulhinho inusitado: TRÁ-TRÁ-TRÁ! Sim, era o som dos leques, acessório de uso pessoal, composto por hastes articuladas e tecido ou papel, projetado para abanar e refrescar em dias quentes.

Foi o principal adereço utilizado, e que foi apontado este ano como símbolo de afirmação e resistência, para demarcar território de uma comunidade diferente, alegre, irreverente e que, a cada ano, forma imensos blocos, juntos e misturados aos foliões. E, conforme orientação dos setores de turismo do estado, milhares deles vêm de outras partes do Brasil e do interior do Maranhão, atraídos por artistas que se identificam com suas exigências e lifestyle

Nas redes sociais, algumas moças héteras protestaram: – “Se você não casou, agora já era; não casa mais!” Puro exagero, pois desde 2011, uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) igualou as uniões homoafetivas às heteroafetivas no Brasil, ou seja, quem quer casar, vai juntar as escovas de dente com qualquer indivíduo pelo qual sente amor e afeto.

Outro fenômeno observado foi o da atuação do cantor baiano Pablo, intitulado o “Rei do Arrocha”. O artista precisou até de helicóptero para se deslocar e atender dezenas de shows pelo Nordeste, muitos deles no Maranhão, incluindo a capital São Luís.

E, durante show de arrocha, o que se observou na plateia dos corredores da folia, não foram sorrisos de alegria, pelo estilo musical descomprometido, libertino e descontraído das tradicionais músicas momescas; foi o choro deslavado de muitos fãs, sabe-se lá se pelas melodias, conteúdo ou por estarem conectadas a fortes emoções diante do principal ídolo da sofrência.

Pablo quase não aderiu ao vestuário leve e até descamisado de muitos cantores que sobem aos palcos nesse período: pelo contrário, usou roupas clássicas, até terno e gravata e soltou a voz para quem quisesse dançar ou sofrer com as suas canções.

Como se observa, o bom e velho carnaval abriu alas para todos os estilos e gostos musicais, para todos os grupos sociais, e não existem mais fronteiras para quem gosta de dançar e se divertir na folia: seja com uma bíblia ou um leque na mão, ou fazendo um biquinho tolo para cantar “Meu bilu bilu bilu bilu”.

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O Editor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.

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