Oscar Schmidt deu ao impossível os ares de uma cena caseira

Morte da lenda do basquete brasileiro mistura duas sensações: a de que partiu alguém muito íntimo e, ao mesmo tempo, inalcançável

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Por Alexandre Alliatti*

Oscar Schmidt parecia saído de uma mesa de café da tarde na casa da avó em alguma cidade do interior. Chamava atenção nele essa sensação de intimidade: que, olhando de perto, ele era algum dos nossos tios falando alto e contando piada em um domingo qualquer, meio bonachão, meio ranzinza.

Ao contrário de Pelé, um rei, ou de Ayrton Senna, uma entidade mítica a bordo de carros voadores, Oscar era uma figura essencialmente terrena. Quando se tentou atribuir sua habilidade a fatores excepcionais, ele rejeitou o apelido de Mão Santa: disse que suas cestas eram resultado de treinamentos obsessivos, não de ajuda divina.

Essa sensação de realidade, essa ligação caseira, estreitou a relação entre Oscar e o público. E tornou o jogador uma personagem admirada mesmo por quem não tinha (não tem) grande proximidade com o basquete. No fim das contas, o que tornava Oscar tão brasileiro não eram as lágrimas nas conquistas ou o discurso patriótico: era a sensação de que nele, em seus acertos e erros, havia um pouquinho de cada um de nós.

Por isso, o sentimento é de que morreu um dos nossos. A notícia da perda de Oscar, nesta sexta-feira, aos 68 anos, mistura duas sensações: a de que partiu alguém muito íntimo e, ao mesmo tempo, inalcançável.

Porque Oscar, nas quadras, fez o impossível. Capitaneou, com 46 pontos, a lendária vitória do Brasil sobre os Estados Unidos na decisão do Pan-Americano de 1987, se tornou o maior cestinha da história das Olimpíadas, foi parar no Hall da Fama do basquete, rejeitou a NBA para poder continuar defendendo seu país, foi aplaudido pelos jogadores do Dream Team ao se despedir da seleção. Teve, por anos, o recorde de pontos no basquete mundial.

E isso tudo em um país de tradição limitada no esporte – bicampeão mundial e três vezes medalha de bronze em Olimpíadas. Oscar não inventou o basquete no Brasil, antes dele houve nomes como Amaury Passos e Wlamir Marques, mas conseguiu projetá-lo como nenhum outro atleta.

Foi um exemplo de obstinação e perfeccionismo. Em quadra, compensava os defeitos (na marcação ou nos rebotes) com uma precisão assombrosa nos três pontos – habilidade que desenvolveu antes de a regra da pontuação diferenciada entrar em vigor, graças a repetições diárias, de 500 bolas, após os treinos.

Faltou-lhe uma medalha olímpica. Foi cinco vezes aos Jogos e esteve perto das semifinais em 1988, mas errou o arremesso final – e passou o resto da vida se remoendo pela falha.

Ela não impediu, porém, que ele se tornasse o maior jogador de basquete que o Brasil já teve. E um dos maiores ídolos do esporte no país em todos os tempos – alguém que será lembrado gerações afora.

*Jornalista e escritor – vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2023)

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O Editor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.

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