Zé Lima, o dono da rima

Ilustração IA

Por Nonato Reis*

Ele parecia carregar no corpo todas as dores físicas. Tinha problemas na vista. Andar era um martírio: doíam o joelho e as articulações. Sofria de asma e também de bronquite. Na face carregava uma ferida esquisita que já havia levado metade do nariz. Dos pulmões também se queixava. Respirava com dificuldade; sentia dores nas costas. E ainda havia uma febre que o visitava dia sim, dia não.

Apesar desse quadro sombrio, Zé Lima, caboclo nascido nas entranhas das matas virgens de Viana, era um assombro. Tocava instrumento de cordas com maestria. Falava soprando versos. Brincava de fazer rimas até com o nome. ‘Sou José de Ribamar Lima, criador de porco, jumento e galinha’, assim gostava de se apresentar. Também era namorador. Mulher nenhuma, sendo bonita, escapava do seu talento criativo.

Certa vez ainda jovem foi a uma festa num vilarejo de Viana. Lá pelas tantas seus olhos toparam com uma morena belíssima. Os versos desataram feito sangria: ‘No ano de 38 eu tava novo e também forte/Tinha 25 anos e gostava dos pagodes/Tocava rabeca e metia muito grogue/Vi uma moça bonita, filha lá de Maçangana/Procurei o nome dela/Me disse que era Joana/Filha de Maria Serra, viúva de Zé Santana’.

Já nessa época exalando jovialidade os olhos começaram a faltar, como se pode observar na descrição da sua musa inspiradora. ‘Era uma morena fina do corpo bem delicado/Boa altura e corpulenta, dos cabelos acacheados/Vinte anos de idade, que já tinha completado/Foi no Centro do Caru, quando eu era rabequista/Tava novo e também forte, mas sempre sentindo a vista/Tocava por lá, na casa do João Batista’.

De tão apegado à rabeca, houve um período em que desandou a tocar e só se comunicava por meio do instrumento. Não comia, nem bebia. Dormir não podia. Deitou-se numa canoa e ficou ali a dedilhar a viola dias a fio. A mãe imaginou que ele havia surtado. Dizia: ‘Zé Lima, vem comer!’. Ele respondia imitando a voz da mãe na rabeca. ‘Zé Lima vem pra casa’, repetia o som da frase por meio das cordas.

Mesmo doente e acabrunhado era capaz de verdadeiras proezas físicas. Como escrever o nome com um pedaço de giz, carregando um peso de 25 quilos, amarrado ao próprio punho. Ninguém no povoado, mesmo os mais jovens e bem-dotados de músculos, conseguia repetir a façanha. Gostava da vadiagem, no melhor sentido do termo. De posse da rabeca varava noites, animando as festas de dança e bailes de São Gonçalo, sem se importar com hora.

Em 1989 fundei um jornal em Viana, que se chamava Cidade de Viana, e destinei uma coluna para os seus versos, intitulada ‘Uma Rima com Zé Lima’. O espaço foi um sucesso. Recebemos cartas do Rio de Janeiro e de Brasília, felicitando-nos pela iniciativa e enaltecendo o talento do artista genial.

De tão ligado aos versos não conseguia conversar sem intercalar uma quadra pelo meio. Eu perguntava: ‘Zé, como foram as eleições em Viana?’. E ele: Nonatinho, a coisa por aqui foi feia, mas muita gente se deu bem (‘A Enedine ganhou 1.500 cruzeiros/Repartiu com o Juca de Lino essa soma em dinheiro/Para agradar os eleitores e votar no Camelo’). Eu tentava retomar o assunto: ‘Mas, Zé, você votou em quem?’. Nonatinho, eu pensei direitinho, mas (‘O Odair conversador, nesse dia não falava/Indignado da vida, porque a instalação não chegava/Quis até tirar a calça e vestir uma saia larga’.

Eu desatava em riso e mudava de assunto. ‘Zé, tem alguma coisa que eu possa fazer por ti’. Com o olhar circunflexo, ficava um tempo em silêncio e depois, me puxando para mais perto dele, como a soprar um segredo, me pedia: ‘Nonatinho, eu quero duas coisas. Primeiro, que tu me traga uma carteira de cigarros, desses afamados. E depois, quero uma revista de mulher nua’.

Incrédulo, indaguei-o: ‘Mulher nua, Zé?’ E ele, normalíssimo: ‘Sim, mulher nua, bem pelada’. Não contive a curiosidade. ‘Mas Zé, tu nessa idade quer ver mulher nua pra quê?’. Ele não perdeu a pose. ‘Nonatinho, eu não faço mais nada, mas ver aquilo me traz um bem danado. Até os meus olhos, quase sempre apagados, ficam mais limpos, e eu consigo ver melhor’.

Perto de morrer, disse que tinha um pedido para me fazer. ‘Nonatinho, meu sonho é ver uns versos meus lidos pelo Carlos Henrique, no Programa do Galinho (levado ao ar todos os dias de segunda a sexta, pela rádio Educadora AM). E peça a ele que me mande sempre um ‘bom dia’, porque eu, daqui, estou sempre ouvindo ele’.

Solicitação atendida, Carlos Henrique passou a ler os seus versos. ‘Agora vou terminar/Peço desculpa ao leitor/Porque eu não sou poeta/Nem também sou professor/Mas isto trago de dote/Foi Jesus que me enviou’.

Era fazer rima e lembrar de Zé Lima.

*Jornalista | Escritor

Publicado no Jornal Pequeno, em 19/02/2012.

Reeditado a pedido da neta do personagem.

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O Editor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.

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