Eu havia sido aprovado no exame de admissão – espécie de vestibular da época para o curso ginasial – e ganhara como prêmio pelo esforço o direito de passar férias em São Luís.

Por Nonato Reis*

Era então um garoto do interior maranhense, nascido à beira do rio Maracu, descobrindo a capital.
Mas o que me chamou a atenção não foi propriamente o aspecto físico da cidade, aquela concentração de sobrados imponentes no chamado coração histórico, e sim, o sentido de dinâmica – obras de porte em construção e placas ao lado delas com a logo “Maranhão Novo”.
Já estivera em São Luís, anos antes, muito pequeno, e notei que de fato havia algo de novo ali, uma espécie de renascer. Na companhia do meu avô materno, conheci a ponte do São Francisco ainda em estacas e também o aterro do Bacanga, com aquele trânsito de caçambas carregadas de pedras, pavimentando a estrada sobre o rio. Vi surgirem os primeiros conjuntos habitacionais da Cohab e do Maranhão Novo, acompanhei o asfalto cobrindo de negro as ruas e avenidas empoeiradas. Então compreendi que a cidade dava os passos iniciais para romper os limites do perímetro histórico e avançar sobre o território despovoado da Ilha.
Se fosse possível lançar um olhar límpido sobre a figura de José Sarney e isolá-lo naquele contexto do início dos anos 70, ele seria reconhecido como o governante que de fato promoveu uma revolução na forma de administrar.
Foi quem pegou o plano urbanístico de Ruy Mesquita, elaborado entre 1958 e 1960, e tirou do papel. Preparou São Luís para o futuro – a cidade como vemos agora é o espelho da mente criativa de Mesquita, com suas pontes, viadutos e avenidas.
Sarney foi mais longe. Lançou as bases estruturais que projetariam o Estado – para o bem ou para o mal.

Construiu o Porto do Itaqui, pavimentou a BR-135, ligando São Luís a Teresina, e de lá possibilitando a conexão com o sul e o sudeste; implantou a Universidade Federal do Maranhão e os ginásios Bandeirantes. Construiu a hidrelétrica de Boa Esperança, que garantiu energia não apenas para iluminar os lares, mas também impulsionar a produção de riquezas.
Uma análise sobre o legado de Sarney há de considerar paradoxos. A história do Maranhão, a partir da segunda metade do século XX, tem as digitais dele. Sarney teria sido um visionário, não fosse por um aspecto que faz balançar os alicerces de sua obra: a falta de um olhar centrado no homem.
Quando assumiu o governo em 1965, prometendo romper com o vitorinismo – velha estrutura política baseada no “coronelismo” – o Maranhão alinhava-se entre os Estados com piores índices de analfabetismo. Era atrasado. Cultivava a agricultura rudimentar, utilizando-se de métodos arcaicos de produção. Também não tinha horizontes. A miséria grassava no campo e nas cidades.
Cinquenta anos depois, na transição para uma nova ordem política, o que mudara? Sem dúvida houve progressos pontuais. O Estado, que anos antes não conseguia enxergar o seu próprio destino, abriu janelas para o futuro. Tem um dos melhores complexos portuários do País e grandes depósitos de gás natural. Se ainda não é uma potência agrícola, dispõe de importante polo de cultivo de soja, milho e arroz, que o coloca fronteira agrícola.
Há, porém, um contraponto devastador. A falta de investimentos sólidos em educação empurra essas conquistas para dentro de um ângulo estreito, onde apenas o contingente privilegiado beneficia-se da riqueza produzida. À margem do bem-estar social permanece parcela significativa da população. Isso explica o fato de o Maranhão ser um dos Estados mais pobres da Federação, com cerca de 30 por cento de seus habitantes vivendo em situação de pobreza absoluta.
Nesse patamar estão os analfabetos e todos aqueles sem acesso a bens e serviços elementares, como água tratada, energia elétrica, escola, saúde, emprego, terra, habitação.
Sarney gostava de dizer que tudo de bom que existia no Maranhão fora feito por ele ou trazido por seu intermédio, o que não deixa de ser verdade. Mas aí há que se perguntar quem é o responsável pela outra face da moeda.
A miséria que grassa no Estado é anterior a Sarney, mas passou incólume por todo o período da sua dinastia. É uma mancha indelével que ficou impressa em sua biografia. Quantos maranhenses morreram de inanição a partir de 1965; quantos não foram expulsos de suas terras sob a mira de carabinas e fuzis; quantos não tombaram pelo caminho, abatido por doenças facilmente tratáveis; e quantos, afinal, não agonizaram feito bichos, em macas de corredores de hospitais, sem direito ao menos a uma morte digna?

Talvez ainda seja cedo para julgar Sarney corretamente, mas ele corre o risco de entrar para a história como o político que tentou desenvolver o Maranhão, investindo em infraestrutura, abrindo estradas, construindo portos, rasgando fronteiras, porém alheio à necessidade de resgatar o homem da pior de todas as masmorras.
O saber é a ferramenta indispensável de redistribuição de renda e de mobilidade social. O motor da roda do destino, que faz com que uma criança nascida sobre o mangue tenha a possibilidade de mudar o curso da história e sonhar com um futuro digno.
Neste quesito Sarney e também seus opositores apanham impiedosamente. Vinte anos atrás São Luís tinha um sexto de sua população vivendo em palafitas. Hoje esse índice está ao redor de um terço. A cidade inchou na periferia, invadiu as áreas alagadas, atolou-se num mar de esgotos in natura.
Por séculos o Maranhão tentou livrar-se de suas mazelas como um náufrago que se debate no fundo escuro de um oceano. Sarney pode desfilar o seu rosário de conquistas. Mas terá que acertar as contas com a história e explicar como um Estado potencialmente rico atravessou mais de meio século ocupando lugar de destaque no mapa nacional da exclusão social e imerso nas trevas da falta de conhecimento.
…
*Jornalista | Escritor
Integra o livro A História Recontada, com lançamento para 2027.

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.





