
Faleceu no último dia 13 de outubro, em Montreal, no Canadá, a senhora Denise Caron, aos 87 anos, uma das primeiras voluntárias estrangeiras a aportar em solo vianense, a partir de 1962, quando colaborou com a implantação da Futura Diocese.
No início dos anos 60, Viana tornou-se a primeira cidade do Brasil e da América Latina a receber uma equipe das Auxiliares Femininas Internacionais.
Conhecidas mundialmente pela sigla AFI, as Auxiliares Femininas Internacionais eram uma organização católica, com sede em Bruxelas (Bélgica), que possuía membros de 25 nacionalidades diferentes.
Denise dedicava muito amor por Viana, lecionou no Ginásio Professor Antonio Lopes, e a sua última visita ao município ocorreu em 2002, quando se hospedou juntamente com o marido na residência do Padre Eider Furtado.
Em homenagem a essa importante voluntária e o seu amor por Viana, o Blog Sotaque Baixada reproduz abaixo alguns momentos históricos das ações da AFI em Viana, publicados no jornal “O Renascer Vianense”, número 41, órgão impresso da Academia Vianense de Letras – AVL.
Matéria também publicada no livro “Anos Dourados em Viana” do jornalista, escritor, pesquisador e acadêmico da AVL, Luiz Alexandre Raposo. Fotos: arquivo/Denise Caron.
O TRABALHO DAS AFI EM VIANA
Por Luiz Alexandre Raposo
No início dos anos 60, Viana tornou-se a primeira cidade do Brasil e da América Latina a receber uma equipe das Auxiliares Femininas Internacionais
Conhecidas mundialmente pela sigla AFI, as Auxiliares Femininas Internacionais eram uma organização católica, com sede em Bruxelas (Bélgica), que possuía membros de 25 nacionalidades diferentes.
O trabalho social dessas auxiliares femininas estendia-se por países da Asia, África e Oriente Médio, apoiando as populações mais carentes principalmente nas áreas de educação e saúde. Em 1960, o então bispo auxiliar de São Luís, Dom Antonio Fragoso tomou conhecimento do trabalho dessas mulheres, durante uma visita à cidade de Chicago, nos Estados Unidos.

Ao retornar ao Maranhão, recomendou ao bispo de São Luís que oficializasse um pedido de uma equipe médica da AFI para Viana, a fim de que a população vianense (então carente de assistência médica permanente) pudesse ser beneficiada por um projeto na área da saúde pública.
Paralelamente, a equipe também atuaria no processo de formação educacional da comunidade, prestando especial apoio aos jovens e camponeses. Foi desse modo que, em 1962, a primeira equipe AFI designada para trabalhar em um país da América Latina desembarcou em Viana, disposta a auxiliar a população de uma das paróquias maranhenses com maior número de católicos e por isso mesmo escolhida como sede da nova diocese que, em breve, seria instalada no Maranhão.
Equipe de Viana – Liderada pela médica italiana, Teresa Boria, formada pela Faculdade de Medicina de Montreal (Canadá) e que trazia no currículo uma experiência de trabalho na Índia, a equipe de Viana tinha ainda a participação da enfermeira argentina, Gaudalupe Baeck, formada na Bélgica, e da assistente social alemã, Maria Schugardt, que possuia também formação em Ciências Religiosas.

Alguns meses depois, para se integrar ao grupo, chegaria a socióloga americana, Gertrudes Pax. Para facilitar o problema da comunicação, as auxiliares femininas foram submetidas a um breve curso de português, em Petrópolis (RJ), antes de se fixarem em Viana. Naquele início da década de 1960, embora já contasse com o hospital mantido pelo Estado e com um corpo de funcionários formado pelas enfermeiras Santinha Neves e Enedina Raposo, além de práticos como Chico Travassos, Bonifácio e Salú Serra (entre outros), a população vianense se ressentia da falta permanente de um médico na cidade.
Era desafiadora, portanto, a missão abraçada pelas primeiras auxiliares femininas internacionais em solo vianense. Além da abnegação cristã e disposição em ajudar o próximo, o trabalho exigia percepção da realidade local e definição de metodologias, a fim de que o objetivo final da missão fosse alcançado.
Minha experiência como AFI
Ao saber que a equipe de Viana precisava de alguém para se responsabilizar pela organização da casa, abracei logo aquela oportunidade, pois sempre sonhara em trabalhar na América Latina.
Aos 26 anos de idade e cheia de entusiasmo, via assim se concretizar um de meus projetos de vida. Dessa forma, em setembro de 1962, como única mulher passageira de um navio cargueiro que saiu do porto de Montreal, desembarquei em Belém do Pará, após três semanas de viagem.

Na bagagem trazia 57 caixas de medicamentos como doações para a equipe de Viana. Em Belém fui recebida por uma missionária americana que me ajudou com os trâmites aduaneiros e providenciou minha passagem num avião de cargas para São Luís, onde fiquei hospedada por alguns dias numa residência de estudantes. Como ainda não havia estrada para a Baixada Maranhense, precisei viajar em um pequeno avião monomotor que transportava, diariamente, três passageiros de cada vez. Foi dessa maneira que cheguei a Viana, no dia 26 de outubro daquele ano.
Nos primeiros dias na cidade pude conhecer minhas novas colegas Teresa, Guadupe e Maria. Gertrudes eu já conhecia, pois havíamos sido colegas em Chicago e Bruxelas, onde completamos nossa formação com as AFI.
Lembro da primeiro dia que saímos juntas para assistir à missa e depois tomar o café da manhã na casa do padre Eider Silva, ao lado de sua mãe, Dona Cotinha. Foi quando comi pela primeira um mamão papaia, fruta que nunca havia experimentado antes.
A missão das AFI – Desde o princípio, o objetivo das AFI em Viana era realizar um trabalho diversificado de organização e formação junto aos camponeses, mulheres, jovens e adultos da paróquia. Responder às necessidades da população era importante e nossa equipe refletia sobre como oferecer às pessoas, também, a possibilidade de participação em encontros de informação e formação que pudessem melhorar sua qualidade de vida.

Não faltavam projetos. Teresa e Guadalupe organizaram um serviço médico, atendendo os pacientes no consultório montado, enquanto Maria trabalhava com padre Eider na paróquia da Matriz, organizando e pondo em prática os programas de formação religiosa. Naquele momento, como preparação para a diocese que iria ser instalada, foi muito importante a formação de catequistas adultos e jovens não apenas de Viana, mas inclusive das paróquias dos municípios vizinhos.
Maria empenhava-se também nas celebrações litúrgicas do domingo e preparação para a Páscoa e o Natal. Gertrudes, por seu lado, dedicava-se ao trabalho do MEB (Movimento de Educação de Base), viajando constantemente aos povoados para palestras de formação, conscientizando os camponeses de seus direitos.
Professora do Antonio Lopes – Em fevereiro de 1963, o recém–fundado Ginásio Professor Antonio Lopes estruturava-se para atender à primeira turma da 3ª série, pois a escola ainda não abrangera as quatro séries do curso. Foi quando o diretor, Dr. José Pereira Gomes, me convidou para dar aulas de Francês e Inglês, tarefa que assumi com o maior prazer. As aulas nas três turmas do ginásio me proporcionaram um contato privilegiado com os jovens da cidade, na faixa etária de 13 a 20 anos.

Foi uma experiência valiosa que nunca esqueci. Como atividade extra-classe, tive a preocupação em oferecer aos jovens reuniões e encontros de formação, fazendo uso da metodologia da Juventude Estudantil Católica (JEC), uma organização que existia em todo o Brasil e em vários outros países. A formação pela JEC – Durante esses encontros utilizávamos o método “ver, julgar e agir” , a fim de que os próprios jovens descobrissem como melhorar sua vida presente e como preparar-se para o futuro.
A realidade familiar, as relações com os colegas na escola, os problemas enfrentados e até seus sonhos e aspirações pessoais eram colocados em debate, permitindo que os demais se identificassem e juntos apontassem as soluções que pudessem melhorar o ambiente em que viviam. Vez por outra também organizávamos conferências sobre a realidade econômica, política e religiosa do Brasil e da América Latina.
Estas reuniões ou encontros ocorriam em nossa casa, na Praça de São Benedito, durando, às vezes, todo o final de semana. Também realizávamos piqueniques ou passeios pelos campos, estimulando atividades de grupo e aumentando o entrosamento entre os jovens. Lembro de um passeio de barco que fizemos ao Mocoroca com o professor Dutra.
A ideia era conhecer mais de perto a natureza, a grande variedade de flores, pássaros e animais. Em outra oportunidade visitamos a paróquia do padre Wilson Cordeiro, em Penalva, onde passamos vários dias. Visitávamos as casas, para conhecer a realidade das famílias locais. Recordo que voltamos, numa noite de lua cheia, em dois barcos de pescadores. Viemos cantando durante toda a travessia do lago e ao chegarmos encontramos alguns pais que esperavam a chegada dos filhos. Foi uma experiência linda.
Depois de tanto tempo, posso afirmar que aqueles anos em que vivi e trabalhei em Viana foram alguns dos mais felizes da minha vida. Foi uma experiência enriquecedora que até hoje me proporciona muitas recordações bonitas.
Denise Caron Montreal (CA), outubro de 2013.

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.






4 Responses
Feliz Viana por ter recebido essa Voluntária e contado com a sua abnegada e fecunda presença! 👏👏
Grato pela participação, Luis Carlos. Abraço!
Denise Caron e suas companheiras tiveram um grande e positivo impacto na formação cristã, política e social de uma grande parte da geração vianense da década de 60 e da qual eu fiz parte. Me identifiquei em duas das fotos ilustrativas desse artigo.
Descanse em paz minha inesquecível mentora! Você deixou uma grande e positiva marca em nossas vidas.
Grato pela participação, Maria Tereza. Abraço.