Personagens de rua que ficaram na memória de Viana

Arquivo Google

Nonato Reis*

 

“Será que ela volta?”

A frase era visceral. Tinha o poder de espicaçar os ossos do homem, cozinhar o fígado. Embrulhava o estômago, percorria o sangue, explodia em ondas de suor e ódio.

Difícil entender como algo tão simples, bizarro até, podia mexer tanto com o estado de espírito de alguém. A resposta vinha com a rapidez e força de um relâmpago:

“Volta. Pra debaixo da saia da tua mãe, seu filho da puta!”

E não se limitava à ofensa verbal. Se o agressor não se retirasse rápido em desabalada carreira, corria o risco de se machucar com a chuva de pedras arremessadas, ou de ter o corpo atingido por golpes de facão.

João da Cruz, um negro de estatura mediana, corpulento, de meia idade, fazia a festa dos moleques que, como eu, cruzavam as ruas de Viana, naquele início dos anos 70, à procura de um pretexto para vadiagens e diversões.

Caiu nas graças das ruas, por um caso carente de comprovação. Diziam que uma mulher, a quem devotara amor, decidira ir embora da sua vida, sem aviso prévio. Nunca mais dera o ar da graça. Mas ele, esperançoso, todos os dias perguntava ao filho mais velho, como a alimentar uma vã ilusão: “Será que ela volta?”.

Em pouco tempo, a cidade inteira conhecia a história de João e se deleitava com ela. Já não podia sair às ruas. Era botar os pés fora de casa e ter o ouvido martelado com aquela ladainha. “Será que ela volta?”.

Mas João não estava sozinho nesse calvário. Junto com ele havia dois outros personagens igualmente lendários. Seu Estêvão, como era conhecido, devia beirar os 70 anos, mas exibia a aparência de um senhor de 80, com seus cabelos e barbas de algodão, e uma hérnia no baixo ventre que o obrigava a andar vergado para a frente. Apesar da ruptura do tecido e do aspecto frágil, trabalhava como estivador, carregando e descarregando as embarcações que aportavam no lago.

Corria o boato que ele se apaixonara por uma mulher mais jovem, a quem lhe fazia a corte, sempre que a encontrava. Em sua fala mansa e arrastada, dizia:

“Dona Tereeeeeza, eu tive um sonho com a senhooooooooora”.

“Que sonho, seu Estêvão?”.

“Ahhhh, eu sonhei que a senhooooora era uma igreja e eu era um santoooooo! Tava deeeeeeeeentro”.

“Seu Estêvão, que petulância! Me respeite! Eu lhe meto esta tesoura”.

“Ahhhhh, mas é da tesoooooura mesmo que eu gooooosto”.

As ruas não perdoavam. Ele cruzava a praça e os moleques se punham a gritar em coro. “Seu Estêvão, olha a tesoura da Teresa!”. O pobre desandava em palavrões e tentativas de capturar os agressores, infinitamente mais ágeis.

Sobre Seu Estêvão corria também uma outra história, esta bem mais verossímil. José Pinheiro, além de dono de torrefação de café e moagem de arroz, era proprietário de lanchas que faziam o transporte de gêneros alimentícios entre Viana e São Luís e vice-versa. Certo dia precisou de estiva para descarregar uma lancha com 50 sacos de cimento.

Chamou Seu Estêvão e quis saber se ele tinha condições de desempenhar aquela missão. Acordo selado, Seu Estêvão deu início ao trabalho. Após transportar o primeiro saco de cimento, foi até a mesa de José Pinheiro, cujo escritório ficava no Sobrado Amarelo – imóvel histórico de rara beleza, com sua fachada revestida de azulejos, hoje reduzido a ruína – e deu-lhe a notícia com ar triunfal. “Seu Pinheiro, eu já trouxe o primeiro saco. Só faltam 49”.

Eu nutria por Seu Estêvão um carinho que não sabia explicar, e isso me impedia de lhe provocar, talvez pelo seu jeito terno e o ar transfigurado, que lhe davam uma aura divina.

E havia também um sujeito de nome Atanásio que, segundo o comentário geral, tinha uma filha belíssima, que trazia dentro de casa, para protegê-la dos olhos ávidos de algum espertalhão. Era chamá-lo de “meu sogro” e ele partir, geralmente montado a cavalo, na perseguição do algoz. Dizem que deu muita surra de chibata em moleques da minha idade.

Eu escapei do relho por um triz. Certa vez, voltava da escola para casa. Sol a pino. Sobre um cavalo alazão, ele passou por mim de botas e rebenque em punho. Deixei-o afastar-se uns 100 metros e soltei o grito: “Meu sogro!”. Incontinente, cravou as esporas no animal que, de um salto, deu meia volta e veio na minha direção a galope.

Com o coração em disparada corri para uma floresta de algodão um pouco mais à frente. Já sentindo o resfolegar do bicho atrás de mim, joguei-me sobre o cipoal formado pelas árvores, nele afundando. Num relance vi o cavalo passando por cima de mim, o chicote sibilando no meu rosto. Como se diz no interior, foi santo remédio. Nunca mais o provoquei.

João da Cruz, Seu Estevão e Atanásio foram mártires do seu tempo. Sofreram na pele as agruras do preconceito e da indiferença. Apesar disso, eram mansos e receptivos. Os que se dispunham a romper a cortina do desprezo e a vê-los como iguais, descobriam neles traços de candura, humildade, pureza de espírito. Todos já se foram para o outro plano. Tal como o Lázaro bíblico, devem habitar hoje esferas mais altas. Para compensar a pesada cruz que se obrigaram a carregar neste mundo.

*Jornalista/Escritor – Do livro A Mulher do Próximo, em processo de edição.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Editor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.

Mande sua sugestão de conteúdo.
E-mail: luizantoniomorais2019@gmail.com

YouTube Sotaque

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade