
Por Nonato Reis*
Conheci Antônio Pinheiro Gaspar em 1989, em meio ao vendaval político que ficara conhecido como “o escândalo das concessões de Rádio e TV”. A mídia nacional acusava o Governo Sarney (1985-1989) de utilizar a outorga de emissoras como “moeda de troca”, para garantir o apoio do Congresso aos cinco anos de mandato presidencial.
Eu trabalha como chefe de redação do lendário Jornal de Hoje, e por óbvio aquele assunto encabeça a pauta da imprensa de todo país.
Gaspar, como se sabe, era deputado federal pelo PMDB, com largo prestígio. Durante a Assembleia Nacional Constituinte, da qual fez parte, ocupou a Subcomissão de Comunicação. Em 1988, em pleno calor dos debates do projeto da nova Carta Magna, ganhara a concessão de uma emissora de rádio, depois batizada com o nome de Maracu AM. Natural que acabasse arremessado ao “olho do furacão”, ainda que nada tenha ficado provado contra ele.
Antônio Gaspar era um sujeito alegre, bem-falante, mas dono de um gênio explosivo. Em 1989 eu fundara o jornal Cidade de Viana, sem qualquer ligação com estruturas de poder. Sua linha editorial priorizava as demandas da comunidade. Aquilo que eu entendia como de interesse público ganhava espaço editorial. Assim, o jornal passou a denunciar o estado precário do Sobrado Amarelo, de propriedade da família Gaspar.
Como se sabe, o Sobrado Amarelo – assim conhecido pela sua fachada de azulejos amarelos – era um imóvel histórico de rara beleza, que disputava com o casarão do Canto Grande – de propriedade da família Carvalho – a primazia de ser o mais importante monumento de Viana. Eu via como um acinte à alma da cidade o seu estado de degeneração. Então, da fase de cobrança à sua restauração, o jornal passou a defender a sua desapropriação pelo poder público, mediante relevante valor social.
O caso do sobrado, somado às manchetes de jornal sobre a farra das concessões de rádio e tv, doeu nos nervos de Gaspar, e quando eu o procurei no seu gabinete, em São Luís, para conversar sobre esses temas, ele me recebeu com a adrenalina nas alturas. Simplesmente me mandou sair da sua sala. Tremendo de raiva, os olhos faiscando, ordenou-me:
– Saia! Eu não vou atender você.
Eu finquei o pé. Disse que entendia a chateação dele com o tom de abordagem da mídia, mas uma coisa era o que a imprensa falava, outra era o que eu pensava.
Gaspar me olhou desconfiado, a respiração ofegante. Aproveitei a pausa, e propus um pacto que consistia no seguinte. Ele me daria o benefício da dúvida; ouviria os meus questionamentos e então decidiria, se continuava ou não com a entrevista.
Dali para a frente passamos a ter um contato amistoso, marcado por respeito e admiração. Porém, nunca frequentei seu círculo de amizade, nossa relação – se é que posso classificar assim – era estritamente profissional. No final de 1989 o Cidade de Viana enfrentava uma crise grave de recursos. Como vivia da doação de pessoas abnegadas, o jornal não tinha mais como se manter.
Sabedor da situação, Gaspar me chamou a sua sala no Laboratório Gaspar, à Rua dos Afogados, em São Luís, e me fez a proposta. As empresas do Grupo Gaspar passariam a anunciar no jornal, e isso garantiria a sua continuidade. Eu lhe perguntei: “a que preço, deputado?” O preço seria tomar parte na linha editorial. Eu pedi um tempo, mas já saí daquele encontro com a decisão tomada.
Eu criara o jornal com o propósito de ser uma ponte entre o poder público e a comunidade, sem a interlocução de políticos, defendendo por todos os meios possíveis o que julgava ser de interesse público. Trazer um político para fazer parte do conselho editorial do jornal, por mais bem-intencionado que fosse, seria trair o compromisso selado com a opinião pública. E assim restara ao Cidade de Viana fechar suas portas.
Em 1996, já sem mandato, disputou a Prefeitura de Viana, como principal adversário do médico Messias Costa Neto, e perdeu. A partir de então, retirou-se da vida pública e passou a se dedicar às suas atividades empresariais.
Na perspectiva de hoje, creio que Viana devia ter dado a Gaspar -assim como São Luís a Pedro Fernandes – a oportunidade de testá-lo como gestor, e essa oportunidade, no meu modo de ver, teria sido 2004, que ele, decepcionado com o rumo das coisas, se absteve de tentar novamente.
Nunca mais tive contato com Gaspar. Às vezes o encontrava em algum evento, e nos limitávamos ao cumprimento de praxe. Nos últimos anos, notei que enfrentava problemas de saúde. Não raro dava com ele, aos domingos, em um restaurante de São Luís, que ambos frequentávamos; ele dava um meio-sorriso e, a distância, acenava com a mão.
Dizem que o que fica do homem são as suas atitudes. Mesmo sem ter privado da intimidade de Gaspar, entendo que ele foi um exemplo a ser seguido: simples, honesto, verdadeiro. Um ser humano que, fiel a seus princípios, conquistou o direito de frequentar a história, para ali se imortalizar.
…
*Jornalista/Escritor | Do livro “A mulher do próximo”, com lançamento para junho deste ano, em Viana.

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.





