É a comunicação, estúpido!

Por Flávia Regina Melo*

Em 1992, os Estados Unidos eram castigados por uma severa recessão econômica, agravada pelos anos da Guerra do Golfo. Desconhecido por grande parte da nação, o então governador do Arkansas, Bill Clinton, se apresentava como candidato a presidente criticando a invasão do Iraque, que rendia 90% de aprovação ao então presidente, George Bush. O jogo começou a virar com a entrada do estrategista James Carville na campanha de Clinton, que reposicionou o foco da disputa, colocando a questão econômica como protagonista dos debates. Carville se notabilizou com a frase: It’s the economy, stupid! (É a economia, estúpido!)

A frase, embora tenha ficado famosa, não alcança a complexidade de fatores que levam um candidato a obter êxito nas urnas. Existem hoje estudos avançados, interpretações variadas em torno dos ditos efeitos que podem ser obtidos com táticas e estratégias de comunicação para obtenção dos votos do eleitorado. O campo envolve simbolismos e subjetividades, emocionalismos e racionalidades e, portanto, jamais será desvendado por meio de um único viés como o econômico. A história das eleições em diversos países demonstra isso.

Comunicação é um terreno em permanente mutação. Exige fôlego para acompanhar as transformações. E, sobretudo, uma busca apaixonada e obstinada pelas trends (tendências). Quem imaginava, há alguns anos, a existência da expressão “Economia da Atenção” – bem cada vez mais escasso e valioso nas rolagens infinitas das redes?

A campanha de Zohran Mamdani, de 34 anos, muçulmano, socialista, vitorioso na disputa pela Prefeitura de Nova York e a guinada na popularidade do presidente Lula não são apenas um termômetro da oscilação das temperaturas do eleitorado, mas principalmente, de como a comunicação pode moldar as percepções do eleitorado.

A obra Opinião Pública e Comportamento Político, de Emerson Urizzi Cervi, doutor em Ciência Política, menciona que “valores pessoais sofrem influências de informações difundidas por meios de comunicação institucionalizados e processos não institucionais”. Marcus Figueiredo, em A Decisão do Voto: Democracia e Racionalidade aponta a questão: “para os economicistas, portanto, o sucesso eleitoral de candidatos e partidos depende, principalmente, de sua performance prévia. Assim, não explicam por que, notadamente nos sistemas multipartidários, alguns eleitores votam sistematicamente em partidos sem experiência de governo e com chances mínimas de chegar ao poder”.

Diante da hiperinformação e seus impactos; negativos como a desinformação – aqui referente às práticas de distorcer, falsificar conteúdos com objetivo de manipulação; e positivos como o acesso instantâneo e interativo aos conteúdos, não há como subestimar os efeitos de uma contemporaneidade permeada pela comunicação. A crença no dinheiro dos operadores e do caixa 2 de campanha como os melhores cabos eleitorais para a vitória nas urnas se transforma em inferno diante de um simples aparelho celular – arma hoje tão poderosa quanto as usadas pela PF.

Nietzsche, em seu fragmento póstumo, tinha razão: “Contra o positivismo, que se detém no fenômeno, só existem fatos. Eu diria: não, justamente não há fatos, apenas interpretações”. Basta um detalhe bem elaborado por uma comunicação com foco em seu resultado para que, na interpretação do eleitor, focinho de porco se transforme em tomada, ou vice-versa. Isso, como diz meu amigo Carlos Mallmann, é negócio para profissionais!

*Flávia Regina Melo é jornalista, foi secretária de Comunicação do Maranhão, especialista em Gestão da Comunicação (ECA/USP) e master em Comunicação Política e Sociedade

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O Editor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.

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