Editorial Folha de SP. Candidato do PL trata momento grave como oportunidade de angariar votos, sem explicar relação com Vorcaro

Dos postulantes se espera a compreensão de que os valores republicanos e a solidez das instituições estão acima das querelas eleitorais
Agrava-se a cada dia a crise desencadeada no Supremo Tribunal Federal pelo escândalo do Banco Master, sem que se vislumbre saída capaz de restabelecer a normalidade e evitar traumas prolongados —e o afastamento liminar do diretor da Polícia Federal pelo ministro André Mendonça é apenas o episódio mais recente.
Deplorável e alarmante, tal cenário põe à prova a conduta dos candidatos a governar o país nos próximos anos. Deles se espera, antes da capacidade de diálogo político e institucional, a compreensão de que os valores republicanos e a solidez das instituições estão acima das querelas eleitorais. É tudo o que não demonstra Flávio Bolsonaro (PL).
Em comício no Dia da Independência, o senador fluminense não se contentou em fustigar o ministro Alexandre de Moraes, que esteve à frente do processo que condenou corretamente seu pai por tentativa de golpe de Estado e hoje está no centro do escândalo político-financeiro.
Com oportunismo rasteiro, buscou transformar a crise em peça de ataque ao rival na corrida ao Planalto e presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —”Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”, discursou. Trata-se de irresponsabilidade e cinismo.
Irresponsabilidade porque fulaniza de modo leviano uma questão gravíssima. O petista e o ministro se associaram, até indevidamente, em temas como a defesa da regulação de conteúdos na internet. Entretanto não se sabe de nenhuma providência tomada ou proposta pelo governo em favor das tramoias do Master.
Não é pouco diante da rede de influência nos três Poderes comprada pelo fraudador Daniel Vorcaro à esquerda, ao centro e à direita. Lula recebeu o então banqueiro fora da agenda, o que, embora impróprio, não se compara a desfrutar de favores ou contratos familiares milionários.
Cinismo porque é Flávio, dentre os postulantes à Presidência, quem mais deve explicações sobre as relações com Vorcaro. Foi ele o flagrado em mensagens amáveis e informais a cobrar os milhões do Master para financiar um filme laudatório ao pai, ex-presidente. É ele quem sonega o prometido detalhamento dos contratos para a obra, também na mira da Polícia Federal.
É desculpa esfarrapada alegar que se tratava de dinheiro privado. Àquela altura já eram notórias as relações promíscuas de Vorcaro e seu banco com políticos e as diversas instâncias da máquina pública. É preciso fingir idiotia para crer que ali se negociava um mero investimento na indústria cinematográfica americana.
Candidatos, como toda a sociedade, podem e devem criticar e questionar o STF e seus ministros. O momento exige, contudo, a postura do estadista que sabe separar o interesse nacional do varejo da busca de votos. Atiçar tensões em benefício próprio é estratégia bolsonarista surrada de afronta às instituições e fomento de tentações autoritárias. (Folha de SP)

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.





