Flávio explora crise no STF com leviandade e cinismo

Editorial Folha de SP. Candidato do PL trata momento grave como oportunidade de angariar votos, sem explicar relação com Vorcaro

Flávio Bolsonaro (PL) discursa em ato da direita no Dia da Independência, em São Paulo (SP) – Bruno Santos – 7.set.26/Folhapress

Dos postulantes se espera a compreensão de que os valores republicanos e a solidez das instituições estão acima das querelas eleitorais

Agrava-se a cada dia a crise desencadeada no Supremo Tribunal Federal pelo escândalo do Banco Master, sem que se vislumbre saída capaz de restabelecer a normalidade e evitar traumas prolongados —e o afastamento liminar do diretor da Polícia Federal pelo ministro André Mendonça é apenas o episódio mais recente.

Deplorável e alarmante, tal cenário põe à prova a conduta dos candidatos a governar o país nos próximos anos. Deles se espera, antes da capacidade de diálogo político e institucional, a compreensão de que os valores republicanos e a solidez das instituições estão acima das querelas eleitorais. É tudo o que não demonstra Flávio Bolsonaro (PL).

Em comício no Dia da Independência, o senador fluminense não se contentou em fustigar o ministro Alexandre de Moraes, que esteve à frente do processo que condenou corretamente seu pai por tentativa de golpe de Estado e hoje está no centro do escândalo político-financeiro.

Com oportunismo rasteiro, buscou transformar a crise em peça de ataque ao rival na corrida ao Planalto e presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —”Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”, discursou. Trata-se de irresponsabilidade e cinismo.

Irresponsabilidade porque fulaniza de modo leviano uma questão gravíssima. O petista e o ministro se associaram, até indevidamente, em temas como a defesa da regulação de conteúdos na internet. Entretanto não se sabe de nenhuma providência tomada ou proposta pelo governo em favor das tramoias do Master.

Não é pouco diante da rede de influência nos três Poderes comprada pelo fraudador Daniel Vorcaro à esquerda, ao centro e à direita. Lula recebeu o então banqueiro fora da agenda, o que, embora impróprio, não se compara a desfrutar de favores ou contratos familiares milionários.

Cinismo porque é Flávio, dentre os postulantes à Presidência, quem mais deve explicações sobre as relações com Vorcaro. Foi ele o flagrado em mensagens amáveis e informais a cobrar os milhões do Master para financiar um filme laudatório ao pai, ex-presidente. É ele quem sonega o prometido detalhamento dos contratos para a obra, também na mira da Polícia Federal.

É desculpa esfarrapada alegar que se tratava de dinheiro privado. Àquela altura já eram notórias as relações promíscuas de Vorcaro e seu banco com políticos e as diversas instâncias da máquina pública. É preciso fingir idiotia para crer que ali se negociava um mero investimento na indústria cinematográfica americana.

Candidatos, como toda a sociedade, podem e devem criticar e questionar o STF e seus ministros. O momento exige, contudo, a postura do estadista que sabe separar o interesse nacional do varejo da busca de votos. Atiçar tensões em benefício próprio é estratégia bolsonarista surrada de afronta às instituições e fomento de tentações autoritárias. (Folha de SP)

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O Editor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.

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