A ordem de despejo e a proposta indecente: “casa comida, roupa lavada e chachê gordo”

Por Nonato Reis*

Sabe aquele tipo de mulher que, privilegiada pela estética, paralisa tudo ao redor e, hipnotizado, o mundo parece que gira em torno dela? Assim é o personagem desta história. Zelinda do Carmo não podia sair à rua, sem colocar a própria segurança em risco. Morena alta, esbelta, nariz empinado, braços e pernas torneados, o corpo querendo saltar do tecido, não havia como passar despercebida, onde quer que fosse.

Mal completara 23 anos, recém-saída do curso de Direito, prestou concurso público para o cargo de oficial de justiça e, para desencanto do marido – sim, senhor, ela casara aos 18 -, que preferia vê-la se preparando para ingressar na magistratura ou no Ministério Público, fora aprovada com folga.

Três anos depois, os registros de incidentes desagradáveis no exercício da função já dariam para editar um livro de ocorrências.

Zelinda trazia vívido na memória o dia em que, ao cumprir mandados judiciais em um dos presídios do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, na zona rural de São Luís, acabou por se ver no centro de um incidente que colocou um pavilhão de presos em polvorosa.

Não que aquilo a surpreendesse. Tentando abortar cenas desagradáveis, antes de cumprir as intimações, procurou o diretor do presídio em sua sala e solicitou que, por medida de segurança, os presos indicados para receber os mandados fossem colocados, sob escolta, um após outro, em uma sala isolada com ela.

O diretor, cheio de problemas e aporrinhações próprias do cargo, achou que aquilo era privilégio e decidiu que a oficiala faria o seu trabalho de cela em cela, ao lado dos agentes penitenciários, caminhando pelos corredores dos pavilhões, como faziam os demais colegas de ofício.

Vencida em seus argumentos, aceitou resignada a intransigência do diretor, porém, mal adentrou um dos pavilhões e a sua presença provocou um verdadeiro pandemônio, com os presos gritando, acenando com os braços, esmurrando as grades das celas, tentando quebrar os portões.

O furdunço chegou até os ouvidos do diretor, que, imaginando tratar-se de um motim, mobilizou a segurança e correu até o local indicado, onde pôde assistir, com os próprios olhos, o escarcéu provocado pela presença da oficiala.

De volta ao gabinete do diretor e sentada em uma cadeira diante dele, Zelinda se dirigiu a ele, com ar de superioridade. “O senhor entende agora, por que tenho que ser tratada aqui de forma diferenciada?”.

Aquele seria o último dia de Zelinda no Complexo de Pedrinha. Alegando questão de segurança interna, o diretor do presídio encaminhou ofício à unidade judicial à qual ela estava ligada, solicitando em tom de súplica que a oficiala não fosse mais escalada para cumprir mandados dentro do perímetro de Pedrinhas.

Apesar dos infortúnios, Zelinda gostava do seu trabalho e até gabava-se de ser uma oficiala diligente. Por necessidade do ofício, aprendera a controlar suas emoções e jamais revidava uma provocação ou mesmo insulto, até quando o caso atingia o limite da tolerância.

Certa vez recebera um mandado de citação de despejo, em face de descumprimento de cláusula contratual. O juiz dava o prazo de 15 dias ao executado, para que fizesse a desocupação voluntária do imóvel. Seguindo as indicações do endereço, foi bater num velho sobrado de dois pavimentos, caindo aos pedaços, da Rua da Palma, a famosa Rua 28, conhecida por ter sido no passado o principal reduto de boemia e prostituição da cidade.

Bateu à porta, que se encontrava aberta, e, como não aparecesse ninguém, subiu a escada de madeira que dava acesso ao pavimento superior. Diante de uma mulher de meia idade que fazia a limpeza do assoalho, apresentou-se e disse que tinha uma ordem da justiça para o Sr. Paulo Mendes Rodrigues.

– Ele se encontra?

– Sim. Naquela porta.

Foi até o local indicado, e, tendo recebido permissão para entrar, abriu a porta.

O requerido era um homem alto, calvo, de meia idade, nariz adunco, olhos claros e receptivo. Zelinda usou o habitou tom respeitoso e objetivo que a situação exigia.

– Meu nome é Zelinda, sou oficiala de justiça. Tenho uma citação para o senhor, para que, em 15 dias, desocupe este imóvel, de forma voluntária, sob pena de despejo forçado.

Sem demonstrar preocupação, o homem sorriu, convidou a oficiala a sentar-se e, de posse do documento, assinou a primeira via, sem ao menos ler a ordem judicial. Depois disse, estendendo o papel à oficiala:

– Aqui está a sua via, senhorita.

Zelinda corrigiu a forma de tratamento para “senhora”, e, aliviada, já se preparava para abrir a porta, quando a voz do homem soou atrás de si.

– A senhora não gostaria de vir trabalhar aqui?

Ela levou um susto.

– Como? O senhor está precisando de assessor?

–  Não, não. Falo trabalhar no recinto a caráter. Aqui você terá casa, comida, bebida, roupa lavada, cachê gordo. E o que é melhor, diversão garantida.

Zelinda achou que sonhava.

– Senhor, eu não estou entendendo. Que trabalho é esse?

E o homem, na maior cara de pau.

– A senhora só precisa dar no caqueado. Tratar bem os nossos clientes, entende?

O sangue de Zelinda queimou nas veias e ela sentiu vontade de quebrar a cara do homem. Mas, como sempre, se conteve.

– Não, meu senhor. Afora o tal cachê, isso tudo eu já tenho em casa, e com amor.

Abriu a porta e saiu, a tempo de ouvir a voz do homem atrás de si.

– Mas se a senhora voltar atrás, saiba que o negócio continua de pé.

*Jornalista/Escritor

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O Editor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.

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