A rotina da fazenda e o cotidiano do Ibacazinho

*Nonato Reis

Como era doce a vida à sombra da Fazenda Bacazinho! Digo “à sombra” porque, para além de referência física, a fazenda tinha a função de um enorme cobertor para o Ibacazinho, protegendo os moradores de toda sorte de agruras, numa época marcada pela carência de tudo, especialmente de conhecimento e tecnologia.

Nem mesmo o prédio da fazenda, um dos poucos do lugar construído em alvenaria, com pavimentos térreo e superior, dispunha de luz elétrica. As noites no povoado eram iluminadas pela luz do querosene que, depositado em um pequeno cilindro de vidro, alimentava o murrão da lamparina até a hora de todos se recolherem.

A despeito desse aspecto rudimentar, o período em que vivi no Ibacazinho não se comparada a nada do que tenha me acontecido depois, quando, movido pela necessidade de conhecimento, tive que deixar o lugar.

No Ibacazinho não tinha nada, e a despeito disso, pode-se dizer que tinha tudo. Tudo de que se precisava para ser feliz, numa prova de que a felicidade não exige grandes coisas, apenas saber valorizar a simplicidade da vida.

E como era boa a vida em volta do velho tamarindeiro que, plantado ainda pelos jesuítas ao tempo da catequese, guarnecia a entrada lateral da fazenda. Ali se reuniam os moleques, como eu, na transição da infância para a puberdade. Para jogar conversa fora, falar mal da vida alheia e, claro, exaltar as meninas que habitavam o nosso imaginário de conquista.

Lembro de Regina de Oldir, exuberante no frescor da puberdade, que, recostada ao tronco da velha árvore, aceitou – sabe Deus por quê –  me namorar. O idílio demorou apenas um mês, ao fim do qual me despachou, com uma frase breve que me fez perder o fôlego: “tu beija muito mal”.

Ali mesmo em volta da árvore secular se davam as brincadeiras de início de noite de lua crescente, que reunia mulheres de um lado e homens do outro. “Casamento oculto”, “Pegador”, “Jogo de Sério” e o famoso “Cair no Poço”, que era a animação preferida, porque oferecia a possibilidade ao cavalheiro de ganhar um afago da dama, seja na forma de um abraço, um sorriso, um beijo na mão ou até, como prêmio máximo, um beijo na boca, o conhecido selinho, com o qual todos sonhavam.

Na Fazenda Bacazinho a rotina do povoado se passava em câmera lenta, como se nem o tempo tivesse o que fazer, especialmente para os de menor idade. Havia a escola no andar térreo, onde meninos e meninas se postavam em fileiras de um lado e de outro, em volta da mesa de vaqueiros que, em tempos de ferra, era usada para servir as refeições dos trabalhadores e convidados da festa.

Porém o ponto de maior atração nos limites da fazenda era o famoso goiabal, que se estendia a leste da casa grande como uma autêntica floresta. No ciclo das frutas, era ali, ao pé e às copas das goiabeiras, que se dava o recreio – o intervalo entre a primeira e a segunda parte do horário escolar. Nem bem começam as aulas, e os alunos já ficavam de ouvidos ligados no toque da sineta, aguardando o tão esperado momento de vadiação.

Iniciado o recreio, as crianças corriam para o goiabal, repleto de frutos amarelos e adocicados. Escalavam o caule das árvores e lá do alto apanhavam as melhores goiabas, não, necessariamente, para alimentar-se, mas, principalmente, para servir de armas, dirigidas uns contra os outros. No final do recreio, as fardas, antes limpas e engomadas, estavam em petição de miséria, repletas de manchas avermelhadas, para o desencanto das mães, obrigadas a duras sessões de lavagem no rio, para reabilitar o uniforme.

E havia também o poço da fazenda, localizado no fundo do quintal. Dizem que, assim como o tamarindeiro, fora herança da catequese. Era uma cacimba grande, com pelo menos uns três metros de diâmetro, e as paredes revestidas de tijolo miúdo. Sobre a abertura um dispositivo mecânico puxava a água do fundo do poço para abastecer a casa.

De todos os lugares da fazenda, era o que eu via com mais reservas. Dificilmente passava ali sozinho e mesmo acompanhado. Diziam que no seu interior, tremendo de frio, havia um padre jesuíta, à espera do primeiro que lançasse o balde à água, quando então uma força misteriosa puxava a corda para baixo, levando junto o infeliz, com balde e tudo.

Eu nunca vi nada ali de sobrenatural, e nem me interessava ver. O que vi, na verdade, foi outra coisa, que me fez brilharem os olhos. Certo dia, noite alta, e as brincadeiras em volta do tamarindeiro, alguém percebeu a falta de Teresa e Lourinho. Teresa era então o objeto de desejo de todo marmanjo do lugar, pela beleza estonteante que, nos seus 15 anos de idade, dava-lhe a aparência de uma deusa egípcia.

Um primo segredou-me ao ouvido que Lourinho – à época com pouco mais de 16 anos e alvo de cobiça da mulherada, que via nele não só beleza física mais também atributos espirituais como inteligência e coragem – conseguira enfim namorar Teresa, e que os dois houveram fugido para o beiral do poço.

Mesmo a contragosto, mas vencido pela curiosidade, acompanhei o primo fofoqueiro até às proximidades do local indicado, e de fato, sentados à parede externa da cacimba estavam os dois, mãos entrelaçadas, sorrisos de cumplicidade, e prestes a colarem os lábios. O que senti, não sei dizer. Mas tive inveja do primo, para dizer o mínimo.

Integra um livro de cotidiano ambientado na Fazenda Bacazinho, ainda sem título provisório.

*Jornalista | Escritor

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