João Daniel Almeida, da PUC-Rio, acredita que vitória de Lula e fuga de Flávio Bolsonaro podem influenciar eleições legislativas nos EUA

Menos de um mês depois de elogiar a rapidez do sistema eleitoral brasileiro ao final do primeiro turno, o presidente dos EUA, Donald Trump, virou a chave e repete contra o Brasil um velho roteiro de ataques aos resultados — que confirmaram a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — e acusações infundadas de fraude. Em seguida, abriu as portas dos Estados Unidos para o senador e candidato derrotado à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que fugiu do Brasil no início da semana e divulgou uma carta de teor golpista, rejeitada até por seus aliados mais próximos.
Em entrevista ao GLOBO, João Daniel Almeida, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, aponta que o movimento que levou à virada de Lula no Brasil e a decisão de abrigar Flávio Bolsonaro, causam ondas no cenário global e começam a fazer parte do discurso de democratas antes das eleições legislativas de terça-feira. Ele também comenta como as urnas brasileiras evidenciaram os limites ao poder de Washington na América Latina.
A vitória do presidente Lula e a fuga do senador Flávio Bolsonaro ganharam bastante destaque na imprensa dos EUA e entre personalidades políticas do país. O senhor vê alguma chance de o Brasil ter alguma influência no voto dos americanos na terça?
Acredito que sim, porque a eleição brasileira teve um impacto global e, obviamente, uma relevância hemisférica. Em meio a fracassos internos, o governo Trump apresentava, dentro de sua perspectiva, os sucessos que conseguiu na América Latina em termos de política externa. E o Brasil conseguiu interromper isso, no momento em que cenários similares ocorreram na Sérvia e na Hungria. Da noite para o dia, o Brasil passou a ser um exemplo de como barrar a extrema direita dentro da democracia. E o candidato derrotado, que dizia que não ia fugir, foi para os Estados Unidos, passando pela Argentina, com a absoluta certeza de que seria acolhido, como o irmão foi. Se Lula tivesse vencido no primeiro turno, não teria chamado tanta atenção. Mas esse roteiro da virada de Lula e da fuga de Flávio Bolsonaro foi uma história muito interessante, com toques de Hollywood, para os americanos ignorarem, e isso fez com que políticos, especialmente do campo democrata, impulsionassem o tema em suas redes sociais. Alguns prometeram deportar os Bolsonaros se a oposição retomar a Presidência em 2028, e outros disseram que, no passado, os escroques do mundo fugiam para outros países, e agora eles fogem para os Estados Unidos. Até Trump ficou com um pé atrás. Apesar de dizer que houve problemas na eleição, disse que era um problema do Brasil. Em alguma medida, isso teve seu peso para que Flávio Bolsonaro mudasse a versão da carta em que se autodeclarou “presidente eleito”, passando a dizer que era o “líder” da oposição.
Assim como Flávio Bolsonaro, Trump ameaça não reconhecer os resultados caso os democratas vençam na terça-feira. Há chances de essa contestação dar certo, e como o resultado impactará seus anos finais de mandato?
Provavelmente os democratas vão virar na Câmara e talvez no Senado, e o que Trump vai fazer é berrar, espernear, como sempre faz. Contudo, isso terá um impacto pequeno nas eleições, e ainda que perca a maioria, não será suficiente para, por exemplo, que lancem e concluam um processo de impeachment contra ele. De qualquer forma, o Congresso, ele será um pato manco (um presidente sem poderes para aprovar medidas) no final do mandato. Mas citando a carta de Flávio Bolsonaro, acredito que ela não terá impactos nessa possível tentativa de Trump de deslegitimar a derrota. Se fosse em uma eleição presidencial, talvez pudesse ter um efeito maior, mas não nas legislativas.
Trump deu abrigo a Eduardo Bolsonaro nos EUA e agora a Flávio e sua família. Qual a vantagem para o republicano com essa movimentação?
Até domingo, era a possibilidade de influenciar as eleições brasileiras com uma série de instrumentos já testados em outras eleições e que ele tinha à mão, como as redes sociais, que, segundo depoimentos e indícios, foram empregadas aqui no Brasil. Os meios digitais fazem com que o processo de interferência seja mais eficaz, barato e até renda dinheiro. Neste contexto, era vantajoso manter Eduardo Bolsonaro nos EUA, intensificar a articulação com Paulo Figueiredo. Agora, algumas variáveis se colocam. A primeira é o processo eleitoral americano. Uma eventual derrota na terça-feira tornará o custo dessa aliança com o bolsonarismo mais elevado. A segunda é a dimensão brasileira, com a perda de poder e influência dessas figuras, uma vez que Flávio Bolsonaro não apenas foi derrotado nas urnas, mas também fugiu do país e sofreu um esvaziamento do seu espólio político. E existe a terceira, que é o fato de Trump abominar perdedores. Ele trata vencedores, mesmo que de campos opostos, com respeito, como vemos com Lula, Xi Jinping (presidente da China), Vladimir Putin (presidente da Rússia). Se Trump entender que é melhor se livrar dos “perdedores”, ele não pensará duas vezes.
Trump não reconheceu a vitória de Lula e questionou a lisura do processo eleitoral brasileiro. Historicamente falando, é uma quebra da normalidade das relações entre Estados Unidos e Brasil?
É algo absolutamente inédito, e ocorreu em uma eleição que, no primeiro turno, foi elogiada até mesmo por ele. Acredito que ele reconhecerá o resultado depois das eleições legislativas, mas isso não faz muita diferença hoje, uma vez que o mundo inteiro já reconheceu a vitória de Lula. Essa relutância apenas mostra um pouco da personalidade dele, que é um tanto excêntrica. Mas não vejo riscos significativos além disso.
Ao mesmo tempo em que não parabeniza Lula pela reeleição, Trump fez alguns afagos ao presidente brasileiro, com quem deve se encontrar em dezembro na cúpula do G20, em Miami. Ao final do dia, o pragmatismo falará mais alto?
Acredito que há coisas mais sérias do que a presença de Flávio Bolsonaro nos EUA, e isso passará razoavelmente batido porque o Brasil não tem capacidade de retaliar. Fico imaginando se ocorresse algo parecido, um investigado americano recebendo asilo político no Brasil. As relações seriam completamente contaminadas. Mas a assimetria de poder, no caso atual, impede respostas como a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes. O governo brasileiro reclama, protesta, mas isso não muda nada nas relações. Algo que entendo ter um potencial para mexer nas relações é a demanda crescente pela regulamentação das redes sociais, a ideia da soberania digital brasileira, que também inclui o Pix e que estará na pauta nos próximos meses e anos. Para os EUA, é algo bem mais sério do que qualquer tensão sobre eleições ou o asilo a uma figura que, menos de 24 horas depois de receber 60 milhões de votos, começou a se tornar irrelevante como líder da oposição.
A vitória de Lula no domingo passado também pode ser lida como uma demonstração dos limites da política de expansão dos EUA na América Latina, a “Doutrina Donroe”, que já conta com mais de uma dezena de aliados?
O fato de o Brasil ter feito isso democraticamente, mesmo com a manipulação das redes sociais, é extraordinário. Acredito que a doutrina tem seus limites, e isso enfraquece o poder de Marco Rubio (secretário de Estado dos EUA), ainda mais se os democratas vencerem na terça-feira. E há um movimento que vejo ganhar corpo nas redes sociais — nós somos um dos países mais hiperconectados do mundo — que é o de influenciadores de esquerda fazendo publicações em inglês, sugerindo que o “Exército do Janones” pautasse, com hashtags, a eleição americana, apoiando candidatos democratas. À sua forma, seria um tipo de resposta a intervenções dos EUA em eleições na América Latina nos últimos dois séculos, através de plataformas de empresas americanas. Me parece que o Brasil começa a ser entendido não apenas como o país do futebol e do samba, mas também como o país da defesa da democracia, conseguindo conter a Doutrina Donroe e enfraquecer Marco Rubio, e que obteve sucesso ao mobilizar e organizar os algoritmos das redes sociais contra elas mesmas, em nome da liberdade e da democracia.
O impasse entre Brasil e EUA em torno de nossas eleições é um novo ponto negativo na já deteriorada imagem de Washington no cenário internacional?
Até entre os americanos, ficou evidente que houve uma intervenção indireta nas eleições brasileiras. E também ficou, mais uma vez, claro como os EUA agem de uma maneira muito proselitista, com uma política externa agressiva que abandona a lógica multilateral da qual o Brasil, e até os americanos, se beneficiaram por muito tempo. Mesmo em um governo democrata, como foi o de Joe Biden, a credibilidade dos Estados Unidos como aliado desapareceu, ao mesmo tempo em que os chineses ganham força, especialmente por sua previsibilidade. E nas relações internacionais, a credibilidade, especialmente em momentos de insegurança, é importante.
globo.com

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.





