
O Maranhão precisa se amar mais. Isso inclui a música. É inadmissível que nosso estado, com uma riqueza cultural gigante, seja tão submisso e covarde, a ponto de enfiar nos ouvidos, todos os dias, o dia todo, a chamada “música baiana”, o sertanojo e um tal de forró eletrônico ou sei lá o que isso seja.
Não existe um lugar São Luís (bares, restaurantes, feiras, lanchonetes, veículos de app, recepções de hotéis, carros sonorizados etc) onde se possa ouvir a musicalidade carnavalesca do Maranhão. Nas emissoras de rádio, idem! Salvo honrosas exceções.
Em todos os lugares da ilha parece haver uma ditadura de Bel Marques e assemelhados, como se não houvesse mais nada para tocar.
Não se trata de negar a diversidade cultural do Brasil ou de criar barreiras preconceituosas para os gêneros musicais produzidos em outras regiões.
Queremos apenas o mínimo de sensibilidade para dosar a quantidade e a qualidade do que ouvimos no dia a dia.
O jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, entre outras sacadas polêmicas, criou a expressão “complexo de vira-lata”. O termo foi cunhado após a derrota da Seleção Brasileira para o Uruguai, na Copa do Mundo de 1958. O “complexo”, vinculado ao cachorro, é associado ao desprezo pelos valores nacionais e, em contrapartida, a exaltação e idolatria das coisas do estrangeiro.
Guardadas as devidas proporções, é mais ou menos isso que acontece no Maranhão. A nossa excelente música do Carnaval é silenciada ou até desprezada, trocada pela idolatria ao “axé music”.
Em nome do respeito aos direitos dos animais, precisamos até atualizar o achado rodrigueano e encontrar outra expressão para designar esse gozo com as coisas dos outros.
Ademais, o Maranhão precisa ver alguns exemplos que estão dando certo. São Paulo, que não tinha Carnaval tão expressivo e visível (se comparado ao Rio de Janeiro), consegue a cada ano crescer e inovar os espaços de folia (blocos de rua) e os desfiles das escolas de samba.
O Maranhão, que já teve um dos melhores carnavais de rua do Brasil, virou a pior imitação do Carnaval “baiano”.
Até o desfile das escolas de samba, dos blocos alternativos, tradicionais e afro de São Luís, realizado na passarela do Anel Viário, mudou de data. As nossas “brincadeiras” ficaram para depois porque os dias de Carnaval são reservados e dedicados aos grandes shows pagos com cachês estratosféricos.
Carnaval é palco de política, sim! E axé music virou uma ditadura no Maranhão!
Como estamos em tempos de resistência democrática, é preciso dizer que a nossa musicalidade ainda está aqui.
Tudo isso pode até parecer um discurso em vão, mais do mesmo, constatação óbvia etc.
Ocorre, no entanto, que é necessário repudiar sempre as ditaduras de qualquer ordem, inclusive das ditaduras culturais.
O Maranhão tem uma impressionante percussão ancestral, batucadas e ritmos únicos, artistas dotados de criatividade universal, fazedores e fazedoras de cultura capazes de botar os nossos blocos na rua para o mundo inteiro ouvir.
Música é um ritual humano que molda os nossos modos de vida, é a expressão artística que qualifica as pessoas através dos fazeres da cultura, atravessando as ancestralidades, atualizadas em novos suportes e tecnologias.
Sobretudo, música é trabalho, requer mão de obra especializada, profissionais qualificados, bem remunerados e devidamente valorizados.
Carnaval é um grande palco para a economia criativa da cultura, a geração de renda e oportunidades.
Os recursos públicos da cultura precisam ser democratizados. Tudo isso passa pela música!

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.





