
Por Nonato Reis*

A transição do querosene para a eletricidade, no Ibacazinho, descortinou um mundo novo – o abrir de portas para uma vida melhor – mas, como tudo na vida, cobrou um preço alto, pago com tristeza e dor.
A luz elétrica chegou, praticamente, junto com a rodovia MA-014, que possibilitou a interligação de parte da Baixada com a capital e o restante do país. Isso por volta de 1973.
Assim, enquanto o leito da estrada ia se formando, os postes com a linha de alta tensão começavam a pontificar a planície verdejante, para mostrar que uma nova era se inaugurava.
Uma quase revolução se operou no ambiente doméstico. O velho fogão de pedras, movido a lenha e carvão, deu lugar ao fogão a gás. A geladeira de querosene foi substituída pelo refrigerador elétrico. A lamparina perdeu espaço para a lâmpada incandescente. Até o cotidiano noturno do lugar, contemplado com a luz das estrelas e da lua, ganhou a claridade da iluminação pública.
Só que o Ibacazinho daqueles anos não estava preparado para os novos tempos. Da eletricidade sabia-se apenas o que podia trazer de bom. Esqueceram de orientar as pessoas a conviver, em segurança, com ela.
Aquela rede de postes interligados por fios de aço que cruzava o espaço a perder de vista passou a ser vista pelos moradores com um misto de admiração e curiosidade.
Toda vez que ocorria um curto-circuito na fiação, com estouros e jatos de luz, as pessoas ficavam como que em suspenso, sem entender ao certo a razão daquilo. Como imaginar que aqueles fios em formato de cordas serviam de veículo a uma força invisível, capaz de matar e até torrar o corpo humano em fração de segundos!
Jovens e crianças se deleitavam com o pipocar da alta tensão. Sem saber dos riscos a que se expunham, engendravam meios de promover aquele espetáculo, jogando na fiação galhos de árvore e até utensílios domésticos, favorecidos pela pouca distância da rede ao chão. Em alguns casos, a distensão formava um arco que se projetava a menos de dois metros da superfície.
Certo dia, no terreno da Fazenda Bacazinho, Tião Xoxota, vendo que os fios roçavam a vegetação marginal da linha de transmissão, pegou uma corrente velha de ferro e arremessou sobre a rede. O impacto com a fiação fez com que a corrente, incandescente, fosse jogada para o alto, causando ruptura da rede, em meio a estampidos e raios de luz.
Mas esses foram apenas incidentes sem maiores danos. Outros casos redundaram em tragédias. Como a de Nhô de Delfina, um sujeito pacato que morava no Taberneiro.
Apesar de mais velho e de já ter constituído família, Nhô frequentava o grupo de Tião Xoxota. Participava de brincadeiras, jogava bola, frequentava os mesmos lugares.
Um dia, vindo de uma pescaria das bandas do Silva (povoado que fazia limite com o Muricituba), Nhô navegava em sua canoa de volta para casa (era o período das cheias, quando os campos ficam submersos e a rede elétrica se aproxima ainda mais da superfície).
Nhô usava uma vara para impulsionar a canoa. Num descuido, a vara molhada tocou a fiação. O curto-circuito provocou explosões, rompeu os fios, afundou a canoa.
A comoção tomou conta das redondezas. O Ibacazinho se cobriu de luto. Para sempre ficou gravada no imaginário coletivo. A tragédia, porém, teve um sentido pedagógico. Aprendeu-se a lição. Eletricidade é bom, mas exige cuidado.
*Jornalista | Escritor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.





