Dedos, mãos e o Oscar

Eloy Melonio*

“Ô sorte!” Essa exclamação melodiosa é um autêntico suspiro carioca para expressar alegria por algo esperado que aconteceu. Nascida da fértil imaginação do sambista Wilson das Neves (1936-2017), essa coisinha simpática vai assim se agasalhando no coração dos brasileiros.

E, assim, uma cena cinematográfica fechou o Jornal Nacional (REDE GLOBO) de 22 de janeiro. Nesse dia, “O Agente Secreto” seria ou não confirmado entre os indicados ao OSCAR 2026. Num gesto espirituoso, os apresentadores César Tralli e Renata Vasconcelos cruzaram o indicador e o médio da mão direita para invocar a sorte. Com os braços esticados, – um de frente para o outro – torceram por uma conquista inédita do cinema brasileiro.

E não é que deu certo! As indicações se confirmaram, e “O Agente Secreto” oficialmente figura nas categorias “melhor filme”, “melhor filme internacional” e “melhor elenco”. E Wagner Moura, “melhor ator”. É pouco, ou quer mais?

E agora muita gente espera que Tralli e Renata repitam essa cena no JN de 14 de março (sábado), um dia antes da solenidade do OSCAR. E aí, um probleminha: os titulares geralmente não apresentam o jornal aos sábados. Resta-nos, assim, ficar com a certeza de que estamos bem-representados. Ou, então, cruzamos todos o indicador e o médio da mão direita.

Essa hegemonia da “sorte” é uma fixação cultural. Cada pessoa tem seus meios de se relacionar com ela e dela receber o que espera. O problema é que seus caminhos e seu timing são imprevisíveis. Assim como seus golpes e sua ironia. Imagine quantos garimpeiros arrasados por causa de seus pífios resultados? Gente que confiou mais na sorte do que nos próprios braços. Que o diga a profª Matilda, protagonista do romance “Ouro de Tolo”, de Jáder Cavalcante. A pobrezinha saiu de casa em busca de novos horizontes em Serra Pelada, no Pará, e terminou no quinto dos infernos.

Não sei se cabe aqui a dura pedagogia de Tim Maia: “Na vida, a gente tem que entender/ Que um nasce pra sofrer/ Enquanto o outro ri” (Azul da Cor do Mar). Ou a lição prática de Gilberto Gil: “Andar com fé eu vou/ Que a fé não costuma faiá” (Andar com Fé).

Muito invocada em despedidas ou ante desafios, a sorte não descansa e não envelhece. Está por aqui desde que o homem perdeu a confiança em si mesmo. Recebe aplausos, ganha elogios, sobe ao pódio. Sempre muito requisitada, seus créditos são, invariavelmente, supervalorizados.

Os extremos não devem ser privilegiados. Já ouvi alguém dizer (sobre outra pessoa): A sorte passou longe desse miserável. Não tem empego, não tem futuro. Numa outra perspectiva: Teve a sorte de ver os filhos bem-encaminhados. De fato, a sorte é uma figurinha multifacetada.

É verdade que muita gente não consegue encarar a vida objetivamente. Acham que tudo é uma questão de “ter ou não ter (sorte)”. Em vez de jogar, ficam na arquibancada, esperando o gol da vitória. Entre várias citações clássicas com essa palavra e escolhi a mais coerente: “Sorte é estar pronto quando a oportunidade vem” (Oprah Winfrey, apresentadora de TV, E.U.).

Em 8 de fevereiro deste ano, Carolina Fratani, 38 anos, parecia preparada para chegar à última pergunta no quadro “Quem Quer Ser Um Milionário”, no “Domingão com Huck” (REDE GLOBO). Leu a pergunta. Pensou, avaliou. Não sabia a resposta e não podia mais recorrer à ajuda externa. Três caminhos a separavam da maleta entupida de cédulas de cem reais. Se escolhesse a opção certa, seria a segunda participante na história desse quadro a sair com um milhão. Se errasse, ficaria com cem mil reais.

Mesmo com toda a plateia de pé, braços esticados em sua direção, sacudindo as mãos em movimentos curtinhos para cima e para baixo, ela permaneceu sóbria e ponderada. Convicta de que a sorte não deve prevalecer à razão, decidiu parar.  E levou para casa R$ 500 mil.

Uma piada talvez seja uma boa reflexão: um montanhista está em apuros. Sozinho, segura-se na ponta de uma rocha que pode ruir a qualquer momento. Grita por socorro. Para seu alívio, uma voz angelical responde: “Confie em mim. Solte as duas mãos”. Desconfiado, grita outra vez: “Tem mais alguém aí?”

E quanto ao Tralli e a Renata? Será que, em março, farão a mesma torcida na sexta-feira, 13, que antecede o Oscar? Parece que essa data não é muito favorável. De qualquer maneira, para os que confiam na sorte, tentar não custa nada, não é mesmo?

De um jeito ou de outro, os cinéfilos brasileiros esperam um resultado positivo para encher o peito e soltar a doce “Ô sorte!”.

*Eloy Melonio é poeta, escritor e compositor

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O Editor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.

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