Fio terra e a má sorte com as mulheres

Nonato Reis*

Levei anos para entender a razão do apelido. Todos o chamavam de “Fio Terra”, ou simplesmente Fio. Menos eu, que o tratava como Beto, em alusão ao seu nome de batismo, Florisbeto.

Sequer sabia assinar o nome e isso não fazia a menor diferença, porque lá no íntimo, onde reside o pensamento, não havia lugar para documentos de cartório. A certidão de nascimento era assim tão útil quanto um papel amassado.

Importante mesmo eram os campos, repletos de animais à espera do pastoreio; o rio transbordando de água, onde nadava com os peixes e até podia pegá-los com as mãos, e o mato que servia de abrigo e caixa de ressonância. Um pau d’arco secular fazia as vezes de confidente. “Nas horas de desassossego eu me acorro até ele e encosto a cabeça no seu tronco. Num instante já me sinto calmo, pronto para a lida”.

Fio Terra era baixo, atarracado, a face e os ombros calejados de sol. Lembrava um Baobá, com suas raízes imensas e desgastadas.

Não tinha medo de nada. Nem de morto. Tanto que nas noites de verão, quando a rede parecia queimar sob o mormaço, ia dormir sobre as lápides do cemitério, a poucos metros da casa.

Eu perguntava: “Beto, tu nunca viu aparição?”, ao que ele respondia com o semblante inalterado: “Nunca vi porque isso não existe. É coisa de gente medrosa. O que morre vira pó. Não tem mais vida”.

Também não gostava de ser desafiado. Fosse por qualquer motivo. Um dia numa ferra, um garrote desses que espumam à aproximação de intrusos já havia quebrado três varas de ferrão e botado os vaqueiros em fila para correr. Os olhos de Fio Terra brilharam. “Vou pegar ele com a mão!”.

Foi um espanto geral. “Homem não faça isso, esse garrote tem parte com o demônio”, gritou o dono da fazenda, os olhos arregalados de medo. Não adiantou.

Contra o apelo de todos arregaçou a calça até os joelhos, sacou a camisa fora e pulou no curral, então transformado em arena daquela luta suicida. Estancado no centro do retângulo enlameado, o novilho encarou Fio Terra. Primeiro ergueu a cabeça, depois a inclinou para baixo e disparou na direção do homem que, lépido feito um puma, saltou sobre seu cangote e torceu-lhe as orelhas.

Pego de surpresa o animal não conseguiu frear a corrida e bateu com a cabeça no lance de estacas de madeira de lei. O choque brutal deixou o touro inconsciente e jogou Fio Terra por sobre o cercado. No impulso do arremesso, Fio deu uma cambalhota no ar e caiu de pé, para o alívio e espanto da plateia, que o saudou como herói.

Fio Terra não se dava bem era com as mulheres. Todas com quem se relacionava acabavam indo embora, sem uma razão aparente. Teve até uma viúva já beirando os 50 anos, com uma penca de filhos, que ele desposou lá para as bandas do Tamataí. Parte da prole ainda era de menor idade, o que o obrigava a jornadas de até 12 horas no cabo da enxada para prover o sustento da família. Todo mundo no Ibacazinho o aconselhava a desistir daquele martírio. “Larga essa mulher, homem! Isso é chave de cadeia”. Nem pensar. Beto era homem de palavra, prometera a ela unir seus trapos até o final dos dias. Assim haveria de ser.

Seis meses depois a mulher bateu em retirada com um tropeiro que aparecera pelas redondezas, deixando-lhe a gurizada como herança.

Encafifado com o que me parecia uma injustiça com aquele a quem a comunidade elegera como seu legítimo defensor, fui ter com Dadá, o único amigo de Beto, e o segundo conselheiro de todas as horas, depois do famoso pau d’arco. “Dadá, o que há de errado com Beto, que ele não consegue vingar com mulher? Não é possível que tenha nascido pra ser corno”.

Dadá, que mascava um pedaço de fumo de rolo, respirou fundo, deu uma cusparada de lado, e me falou como quem inicia um juramento. “Você promete que não conta isso a ninguém?”, eu assenti, beijando os dedos em cruz, e ele prosseguiu. “A explicação está no próprio apelido”.

Eu me fiz de desentendido. “Como assim? O que tem o apelido dele?”. Dadá deu um risinho e continuou. “É que ele só trepa na base do empurrão”. E vendo a minha cara de rei pasmado, completou. “Fio terra, meu filho, a mulher com o dedão da mão acunhado no brecoval dele”.

*Jornalista e escritor vianense

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