
Ed Wilson Araújo*
O fogo das palavras de ordem puxadas pelos(as) estudantes de Jornalismo do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), abastecido pela música de Sergio Sampaio (Eu quero é botar meu bloco na rua), abriu os trabalhos da aula especial proferida por Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no memorável 11 de setembro de 2026.
Paulo Freire não estava de corpo presente, mas as ideias do educador que batiza o auditório onde o ministro parlou pulsaram na mesma intensidade da mística quente e emocionante protagonizada nos cartazes, faixas, bandeiras, cantos, bordões e gritos de guerra da juventude estudantil do Pronera, oriunda de variados territórios do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Nordeste, Pará e Tocantins.
Cartazes e bandeiras da mística do Pronera abriram a aula especial. No palco, a professora Rakel de Castro mediou a palestra do ministro Flavio Dino
Incêndio (controlado)
Foi o fogo também a simbologia das últimas palavras do palestrante, em tom de agradecimento, quando disse estar acolhido pelo auditório como se dormisse em uma cama quentinha.
O fim, o início e o meio da aula especial intitulada “Democracia, algoritmos e o direito à palavra” atravessou a espiral da História explorando os conceitos sobre os poderes fundantes do regime democrático, imperfeito, mas desafiado a fazer com que saia do papel e ingresse na vida concreta das pessoas, em direitos sociais e políticos.
Sem democracia – pontuou – a humanidade fica vulnerável às ameaças do nazifascismo, baseado no autoritarismo e na violência para exterminar o diferente na atmosfera minada pela intolerância.
Informação é dinheiro
O ministro cravou a expressão “tecnodeterminismo” para classificar o cenário contemporâneo ditado pelo ordenamento do mercado de informações embaladas pelo pomposo nome de algoritmo.
“Nem banco, fazenda ou poço de petróleo juntou tanto dinheiro como as empresas de tecnologia”, enumerou.
Como imperativo, o tecnodeterminismo “está na vida da gente em todos os planos”, sistematizou, ao mencionar as vantagens e desvantagens do uso de dispositivos e aparatos presentes na sociedade.
É preciso regular
Como insumo do mercado de informações, o algoritmo transforma cada pessoa em multiplicadora da lógica dos diversos tipos de negócios na internet, que converte os donos de plataformas e redes sociais em proprietários das maiores fortunas do planeta.
Assim, tecnologia e poder econômico caminham juntos para o bem (informar, entreter, conectar pessoas) e para o mal (concentrar riqueza, manipular, desinformar, disseminar ódio, violência, viciar em jogos e precarizar o trabalho).
Além do bem e do mal, enfatizou Dino, é necessário regular a terra arrasada, logo tirando carta de seguro para combater o falso argumento de que regulação é censura.
Censura, lembrou, é coisa de ditadura.
“Regular não significa que a tecnologia tem de ser eliminada ou levar à perda de liberdade”, clareou.
Deduziu ainda que a regulação é necessária para viabilizar a competição, inserindo a comunicação popular e comunitária no ecossistema da mídia, quase toda controlada pelo segmento empresarial com a finalidade do lucro.
Algoritmo somos nós, nossa força e nossa voz
Como negócio, a mídia digital faz o consumo navegar no império dos sentidos. “A pessoa, até para namorar, confia mais no celular do que em si mesmo”, descontraiu, para em seguida falar sério sobre o poder econômico, político e psicológico da internet, onde pessoas são coisificadas; e as coisas, personalizadas.
O território das sensações e dos prazeres, detalhou, passa pelo acionamento da dopamina, hormônio que, entre outras funções, estimula a “busca incessante e instantânea de um prazer insaciável, rolando a tela do celular achando que vai encontrar o pote de ouro ou o Santo Graal.”
A pessoa que goza ao rolar a tela é a mesma que monetiza infinitamente as plataformas e as redes. Por essa lógica, “nós somos o produto”, explicou Dino.
“Qual o produto dessa riqueza? O produto somos nós, a nossa atenção, o nosso vício em dopamina”, sintetizou.
Diante desse diagnóstico, o ministro reiterou a necessidade da regulação da internet como forma de conter o impacto do mau uso da tecnologia em todas as faixas etárias, especialmente crianças, no trabalho e na economia.
“Regulação pode ser problemática, mas pior sem ela”, resumiu.
Liberdade e diploma em Jornalismo
Ainda sobre regulação, a palestra tocou em outro tema polêmico – a retomada do debate sobre a exigência da formação profissional para o exercício da atividade jornalística.
Segundo Dino, “uma coisa é escrever no Instagram e ser responsabilizado. A outra coisa é o exercício da profissão de Jornalismo, que exige conhecimento técnico e ético. E não existe outro lugar para aprender isso a não ser estudando na Universidade. Eu tenho defendido que o STF volte ao assunto para dizer que o Jornalismo deve ser igual às demais profissões e ser exercido somente para quem se habilitou para essa função. E isso não é perder a liberdade.”
O ministro avançou na proposição de combinar o exercício da liberdade de expressão com responsabilidade. Significa dizer que não cabe distorcer o conceito de liberdade para fazer apologia do ódio e da violência ou propagar desinformação.
Assim, pontuou, a dialética da liberdade está justamente na construção de um aparato institucional para garantir o direito à palavra com bom senso. Só nas ditaduras, exemplificou, predomina a lei do mais forte, mediante a censura, prisões, perseguição e extermínio.
Individualismo nega a política
O uso da internet para ensinar a fabricar bomba, motivar pessoas ao autoextermínio ou instruir métodos para torturar animais não pode ser aceito como liberdade de expressão – sublinhou.
A abordagem seguiu analisando o consumo indevido de conteúdos no processo de destruição dos vínculos sociais. Dino chamou especial atenção para o hiperindividualismo, um certo modo de viver provocado, entre outros fatores, pelo relacionamento com o aparelho celular.
Essa nova forma de sociabilidade, uma espécie de egolatria com o dispositivo tecnológico, gera tipos comportamentais próprios do eu comigo mesmo, evidenciados na competição para além dos parâmetros éticos, a busca de vantagem a qualquer custo, a quebra das relações de confiança e a implosão dos laços de solidariedade.
As paixões humanas – amor, ódio, inveja, cobiça, desejo, tristeza etc – são impulsionadas para mobilizar a multiplicação do capital que transita nas luzes e cores das telas dos aparelhos.
Alienada ao dispositivo, a pessoa que monetiza o algoritmo vira ela própria um insumo do mercado de bytes de todos os tipos, vulnerável às induções para guiar comportamentos, formar opinião e tomar decisões nem sempre pautadas nos critérios de verdade.
Por óbvio, fabricar e compartilhar desinformação é um ato antiético.
Assim, o novo tipo humano que emerge do tecnodeterminismo é antissocial no sentido de ruptura com os parâmetros fundamentais do princípio da comunidade – ente fundador da política e da democracia.
O indivíduo excessivamente algoritmizado pode ser a negação da humanidade.
E agora?
Chegado o momento de perorar, o Sermão aos Algoritmos descartou o fim da História e o apocalipse.
Homem religioso, o ministro está agarrado a dezenas de santos, mas reconhece que Deus está muito demandado com tantas mazelas humanas.
O mundo real, do chão da fábrica, só pode prosperar com democracia e regras jurídicas (constitucionais) para impedir os abusos do Estado e do ente privado. Sem regras, frisou, vence a lei do mais forte que impõe a sua vontade acima da diversidade.
“Temos de professar a esperança para combater o desespero ou a marcha da insensatez”, projetou. Em outras palavras, esperançar tem a força de uma catequese, sem doutrinação.
Mencionou também o choro, porque tem hora que bate o desespero.
Direcionando o final do sermão aos estudantes do Pronera, elogiou a mística inicial e receitou a perseverança, o estudo metódico, a firmeza nas ideias e a busca permanente da luz que está no conhecimento.
São Luís, 13 de setembro de 2026.
*Professor Doutor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.





