
Por Nonato Reis*
Tião Xoxota caminhou pelo Cemitério dos Anjos à procura do túmulo de sua falecida mulher, Zuca, há muito moradora do plano celestial, por conta de uma tuberculose avassaladora. Era Dia de Finados, e Tião costumava visitar o cemitério logo cedo, para evitar aglomeração.
Assim podia “trocar algumas ideias” com o espírito daquela por quem devotava respeito e gratidão. Não fosse por Zuca, talvez já não estivesse neste mundo também, sucumbindo ao desprezo de toda uma comunidade que o via como Judas, no episódio que quase culminou com a destruição do rio Maracu.
Mas isso era passado, e Tião estava ali para desabafar. Mal terminara uma eleição que premiara o gestor atual com um segundo mandato, e isso o deixara inconformado. Na verdade, inconformado não era bem o termo, porque ele se sentia indignado. Como era possível dar a um canalha daquele que tanto mal causara às pessoas uma segunda chance de dilapidar o patrimônio público? O povo só podia ser muito otário de cair na lábia de um falastrão. Não ia sobrar pedra sobre pedra.
Aproximou-se do túmulo de Zuca e tirou o chapéu em reverência. Tião se dizia cristão, mas não sabia rezar. Assim, baixou a cabeça e fixou o pensamento na mulher, que era a sua forma habitual de atrair o espírito da finada. Naquele dia, porém, quem surgiu diante dele, pairando um pouco acima da sepultura, foi o fantasma de Tia Zumira, que Tião antipatizava, e o certo é dizer que ambos se detestavam.
Como sempre o fazia todas as vezes em que se via diante de Tia Zulmira, Tião a recebeu com o cenho fechado e os olhos em brasa. Por não poder falar diretamente com ela, usou o pensamento para estabelecer o contato.
“O que você quer, espírito do demônio. Alguém te chamou aqui?”
Tia Zulmira respondeu em tom de menosprezo.
“Desde quando eu preciso de chamamento para ir aonde eu quiser? Na verdade, vim porque tua mulher me pediu para lhe representar. Ela entende que tu precisa ouvir umas verdades”
“Que verdades, sua ordinária?”.
“Tu não tem moral para falar mal do prefeito, e muito menos do povo”.
“Não tenho moral? Então o sujeito é um filho da puta, e a senhora quer que eu fique satisfeito com a eleição dele? O povo é muito burro de votar nele”.
“E quando te elegeu vereador, o povo foi inteligente?”
“Eu era muito verde. Achava que podia melhorar a vida deles”.
“E deu no que deu”
“Coisa do passado, Tia Zulmira. Falo é de agora”
“O povo também acha agora que o prefeito pode melhorar a vida de todos”.
“Tia Zulmira, o cara é ladrão!”.
“E qual político não é ladrão? Tu?
“Eu cometi meus pecados, mas me arrependi. Hoje sou outro homem”.
“Pois então dê a esse homem a mesma chance de se redimir”.
E aproximando-se dele, soprou no ouvido. “Não pensa que tu me engana com esse ar de Madalena arrependida. Se tu tivesse outra chance, eu tenho até pena da viúva”.
De súbito desapareceu numa nuvem gasosa, e Tião, o olhar patético, não conteve um palavrão.
“Filha da puta!”
…
*Jornalista | Escritor
Do livro “As aventuras de Tião Xoxota”, previsto para 2027.

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.





