Sebastião Xoxota,  de vaqueiro a personagem de livro

Nonato Reis*

Sebastião Cidreira era um cabra macho, desses que só se vê nas entranhas do norte e nordeste do Brasil. Mesmo quando, picado por uma cascavel, viu-se pela hora da morte a urinar e suar sangue por todos os poros, manteve a calma e caminhou até a cidade onde recebeu o tratamento devido. “Eu vi a morte de perto, ela sorriu comigo e até tentou me beijar na cara, mas eu lhe dei um safanão e disse: ‘sai pra lá, que eu ainda quero viver!’”, relembrava em tom de exortação.

Era filho de Juvenal Cidreira, o sujeito mais corajoso do Ibacazinho, um lugarejo distante 40 minutos a pé da sede do município, Viana. Além da coragem, do pai herdara a disposição para o trabalho, que o mantinha em jornadas diárias de até 12 horas. E também a falta de jeito com as mulheres. Uma vez tentou beijar uma jovem na marra e foi premiado com um tapa na cara. “Aquilo doeu na alma. Mas não revidei não, senhor! Porque homem não bate em mulher”.

O que desnorteava Tião era um detalhe que trazia às costas, abaixo dos rins, quase na junção da coluna com a bacia. Uma saliência de músculos em forma de triângulo, coberta de pelos, que lembrava a anatomia do sexo feminino.

O adereço, ou seja lá o que se queira denominar, fez de Tião uma espécie de lenda, alçado à condição de personagem do romance “A saga de Amaralinda”, sendo que a sua importância na trama cresceu tanto que acabou por ofuscar os protagonistas da história.

A molecada do lugar, quando percebeu aquilo, logo o batizou de “Sebastião Xoxota”. O apelido correu mundo. Para onde ia sempre havia alguém que o conhecia, a chamá-lo com aquela alcunha que tanto o contrariava e o tirava do sério.

No começo ele até tentou aceitar a má sina sem maiores problemas. Aos que, atraídos pela anomalia, tentavam se aproximar e fazer perguntas, ele apenas advertia: “Olham, mas não bulam”. A situação, porém, logo fugiu do controle. Mais do que ver, as pessoas queriam tocar, apalpar e até pressionar com a ponta dos dedos.

A coisa desandou de vez, e o apelido derivou para outras corruptelas. Além de Xoxota, chamavam-no também de Tião Xereca, Boca de Cabelo, Aranha Caranguejeira, e por aí vai. No auge da raiva, Tião sacava de um facão e corria atrás dos mal feitores, que fugiam para dentro do mato.

Em pouco tempo, os moradores do lugar chegaram à conclusão que Tião só podia ser uma mistura de homem e mulher. “Se aquilo nasceu nas costas dele, significa que ele é uma fêmea enrustida”. “A prova que também é mulher tá na cara, ou melhor, nas costas. É veado, sim, senhor”.

Para Tião, filho e neto de vaqueiros, e com a responsabilidade de dar continuidade à linhagem da família, aquilo era demais. Para a irmã mais velha resumiu o seu sofrimento. “É uma dor que esmaga o peito”.

No auge do desespero, foi ter com o padre, a quem pediu que examinasse a saliência e lhe desse um diagnóstico seguro, mas o padre, quando viu a protuberância nas costas de Tião, fez o sinal da cruz três vezes e o enxotou da sacristia. “Suma daqui, seu Tião! Isto não é coisa de Deus, é do demônio. Reze 100 Pai-Nossos e 100 Ave-Marias. E não me apareça mais aqui com essa indecência!”.

Tião, que nos seus 26 anos ainda era virgem, entendeu que só havia um jeito de saber se era homem ou mulher. Procurou o bordel da cidade e alugou um quarto por duas horas com uma garota morena, de seios fartos e bunda grande. No desespero de provar a sua masculinidade a si mesmo, broxou de não mais ter jeito. A garota pediu-lhe calma. “Isso acontece. Você precisa de estímulo”. E encostou o dedo no traseiro de Tião, ao que ele reagiu bruscamente. “Minha senhora, isso não se faz com um macho que nem eu! Quem a senhora pensa que sou?”.

Mais uma vez ela pediu calma. “Não se desassossegue. Tem homem que gosta”. Foi então que pediu para Tião virar de bruços, uma massagem caprichada operava milagres, quem sabe o pinto acordava! Porém, ao dar de cara com aquilo nas costas de Tião, a mulher danou-se a sorrir de um jeito incontido. Depois o que era riso evoluiu para gargalhadas sem fim. Por último, com as mãos deslizando nervosamente sobre a saliência, comentou em voz baixa. “O senhor, de macho tem o corpo. Mas a coisa é de mulher; está aqui em minhas mãos!

Integra o livro de contos e crônicas “A menina e o sol poente”, com lançamento para julho deste ano.

*Jornalista/Escritor

2 Responses

  1. Esse cabra é fera. Desenterra cada uma!!! Pena que não circule mais o seu Jornal CIDADE DE VIANA de 1989 para publicar suas belas crônicas.

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