Tião e o jingle que incendiou a campanha para vereador de Viana

Por Nonato Reis*

Tião Xoxota atracou a canoa de tarumã na enseada do Saragoço, e olhou em volta. Patos e socós disputavam os peixes miúdos que nadavam na superfície líquida do Lago do Aquiri, rente à margem. Era a época do abaixamento, quando as águas iniciavam o movimento de recuo, descobrindo a planície submersa, e uma brisa suave soprava do leito para as terras firmes.

Ajustou o chapéu de palha na cabeça e se encaminhou na direção da palhoça erguida alguns metros adiante. Ali morava Zé Lima, o morador mais conhecido do lugar, e isso se dava em razão da sua facilidade com as palavras. Apesar de ter feito apenas o curso primário, Zé Lima era um mestre na arte de falar ( e escrever), por versos e rimas. Tudo era motivo para construir estrofes, algumas de reconhecido valor poético.

Até então Tião tivera pouco contato com o poeta, exceto numa festa de São Gonçalo no Taberneiro, animada pela rabeca do repentista. Mas isso fora alguns anos atrás e quase já nem se lembrava do aspecto físico do homem.

Estava ali por uma necessidade de ocasião. Tivera o seu nome lançado para concorrer a um mandato de vereador, com o apoio do Clube de Jovens do Ibacazinho, do qual participava. A entidade era presidida por Amaralinda, a maior liderança do lugar.

A ideia fora dela, que via nele qualidades de um bom político. “Você é corajoso, não tem papas na língua e sabe dizer o que pensa”, dissera-lhe dando o assunto por decidido. “O nome é você, Tião. Você vai representar o Ibacazinho na Câmara Municipal”.

Depois, já com a estratégia de campanha definida, Linda o instou a procurar Zé Lima. “Você precisa de um gingle”. Tião não sabia que diabo era aquilo, e ela explicou. “É uma música feita por meio de versos, que vai dizer ao povo quem você é”. Em seguida completou. “Ninguém melhor do que Zé Lima para fazer isso”.

Aproximando-se do terreiro em frente à casa, bateu palmas e exortou os moradores. “Ô de casa!”. Zé Lima apareceu metido num pijama de chita. “O que deseja?”.

Tião se apresentou. Morava no Ibacazinho, pertencia a um clube de jovem, pretendia disputar as eleições daquele ano para vereador, e precisava ( de que mesmo?) … de uns versos de rabeca. “É pra animar o povo a votar n’eu”

Zé Lima gostou do jeito despachado de Tião, e falou num tom pretensioso:

“Tá muito bem, seu Tião, o senhor bateu na porta certa, que a solução para isso é mesmo o poeta”.

A um sinal do dono da casa, adentrou a sala e se sentou num mocho indicado por ele. Tião queria saber como seria feito o trabalho, e quanto aquilo lhe custaria.

Zé Lima sorriu, disse que custaria só algumas carteiras de cigarro e revistas de mulher nua. Tião achou graça da resposta do homem, mas avisou que tinha pressa. “Quando o senhor pode me entrega esse troço?”. Zé Lima disse “agora mesmo”. Mas ponderou. “Antes eu preciso me apresentar”.

E deitou os primeiros versos:

“Eu me chamo José de Ribamar Lima/ criador de porco, jumenta e galinha/ Não uso faca nem bainha/mas sei fazer versos e rimas/que isto trago de sina”

Tião sorriu e falou para si: “Linda tava certa. Esse homem é medonho. Nunca vi nada igual”.

E antes que falasse qualquer coisa, o poeta já se apressava em mostrar a peça de marketing que seria o mote da campanha.

“Nas eleições deste ano

Não precisa fazer plano

Viana já sabe quem vai ganhar

Na hora de votar

Não vai atrás de lorota

É Tião na cabeça

E viva Xoxota!!!”.

Os versos se encerravam com um “Viva, viva!”, servindo como bis.

Tião sorriu meio assustado com aquele final inusitado. A rima parecia boa, mas será que o eleitor entenderia? Como a ler seus pensamentos, Zé Lima entrou no quarto e voltou com a rabeca na mão. Ajustou as cordas do instrumento e colocou melodia nos versos. Os acordes deixaram Tião embasbacado. Como era possível fazer uma coisa tão bonita de se ouvir?

De volta à canoa, ainda com os versos e a melodia ecoando no cérebro, Tião olhou para trás e viu a figura franzina do poeta, que acenava sorridente. Então pensou consigo. “Esse homem deve de ter parte com o cão! Ou será um enviado de Deus?”

Ze Lima passou a acompanhar Tião nos comícios e reuniões políticas, ocasião em que tocava os versos na rabeca, para deleite dos presentes. De tão ouvido e repetido entre os moradores o jingle de Zé Lima se tornaria espécie de hino das eleições daquele ano e daria a Tião votação consagradora.

*Jornalista | Escritor – Do livro O Matuto, com lançamento previsto para 2027.

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O Editor

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.

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