O jornalista, poeta e cantor Cesar Teixeira registra que nesse domingo (7 de junho) fazem 45 anos do falecimento do amo de boi Zé Igarapé, um dos primeiros cantadores da Madre de Deus, no início do século XX.

Em 2020, Cesar Teixeira publicou alguns textos sobre Zé Igarapé no Suplemento Cultural & Literário JP / ANO I – Nº 16 / pág. 02 / São Luís (MA). Reproduzo a seguir a matéria de sexta-feira (14 de junho de 2002).
Ninguém como Zé Igarapé, falecido em junho de 1981 com 92 anos, deu um testemunho vivo sobre o que foi o boi de matraca num dos bairros mais tradicionais de São Luís: a “Madre Deus”, na sua melhor versão. Enquanto não se refaz o nosso terreiro cultural, que é só para boi de gigantes, mostraremos aos pouquinhos no “Guesa Errante” os momentos de glória (não sem cacetadas e rapapés) de um dos nossos maiores cantadores com a dirindana e o maracá na mão.
José Anastácio da Silva, nascido em Alcântara no dia 7 de setembro de 1889, happy-day da Independência e vésperas da Proclamação da República, nunca assinou o nome porque não pôde ir ao colégio aprender. Veio ainda criança para São Luís, e com 13 anos teve que trabalhar na fábrica de tecidos Fabril, onde passou três anos, para ajudar os pais: Conrado Silva e Senhorinha dos Passos Silva.
Em 1905, foi para a Fábrica São Luís, de fiação, na rua São Pantaleão. Tornou-se foguista, alimentando de carvão os fornos das máquinas inglesas. “Minha mãe já estava velha. O pai era aleijado, não tinha um braço. Foi cortado pela República”, diz Zé Igarapé, numa rara entrevista concedida no dia 7 de junho de 1974 em sua casa, no Caldeirão Quebrado, ou Praça Demerval Rosa, nº 2, bairro da Madre de Deus.
Seu Conrado, monarquista pé na parede, estava no meio da multidão que, armada com pedras, queria tomar as bandeiras dos soldados republicanos. Foi baleado e colocado num carro pelos militares. No hospital, o médico disse: “Em barulho de branco, preto não se mete!”

Conforme Zé Igarapé, “o Dr. Afonso cortou o braço dele, que estava bonzinho”.
PRIMEIRO DESAFIO
Embora obrigado a trabalhar muito jovem em prol da família, Zé Igarapé já era carrapato de boi e tinha toadas no cocoruto. Por força das circunstâncias, foi transformado em amo do Boi da Madre de Deus da noite para o dia, com apenas 15 anos.
Ocorre que, em 1905, o batalhão ficou sem cantador, pois Luís Barriga d’Água transferiu-se para o Boi de Santiago, sem mais nem menos.
Numa roda de brincantes, o nome de Zé Igarapé foi lembrado, mas logo alguém matutou que ele era menor e não podia ficar responsável pelo boi. “E quem aqui é responsável pela vida de quem?” Foi Pedro Cação quem colocou tudo nos eixos. Iria falar com os pais de Zé Igarapé e estaria resolvido.
Um gaiato repetia para aporrinhar: – Eu só quero ver o amo novo!
“Eu garanto cantar e arretiro todas as cantigas dele, vou botar só as minhas”, respondia Zé Igarapé.
O certo é que o rapaz encheu o peito no guarnicê e, às duas da madrugada, ninguém queria mais deixá-lo ir para casa, embora insistisse que tinha de acordar cedo. Teve que jogar o maracá no chão e sair correndo.
Naquele tempo os ensaios eram realizados na “ponte”, espécie de atracadouro à margem do rio Bacanga, local estratégico para escapar da polícia, que vivia farejando cueiros de boi na falta do que fazer.
Quando a tropa aparecia, a cambada se atirava na água.
BOI NA CANELA
O apelido foi uma herança do bisavô, soldado de poucos réis. “Tarrafeava no garapé do Apicum pra tirar marisco, siri, caranguejo, pacamão. Passava da hora, ele não ia no quartel. Dois ou três dias depois, o pessoal ia atrás dele no garapé e levava ele preso”.
Zé Igarapé, ou Zé Garapé, quando se entendeu o boi já existia. O primeiro cantador da Madre de Deus foi Estevão Roxo. Depois é que vieram Sabino Beira d’Água e Luís Barriga d’Água. Os dois vadiavam na ilha, quer dizer, nos sítios: Maioba, Pindova, Mata etc., bois mais antigos.
Na verdade, eram muitos os sítios e bairros de São Luís que “botavam” bumba meu-boi. “Só pra ver quantos bois nesse tempo tinha, o quanto não tem agora”, Zé Igarapé cantava:
“Madre-Deus pra Garapé,
São Remundo pra Macaquinho,
os Céus tão pra Peixe-Galo,
Tirirical só pra Lino,
Laranjal pra Iziqué,
as Mercês pra Zé Maria,
a Mata pra Secundino.
Pindova é de Januário
o Guaíba é de Remundo,
Marciano ficou calado.
Bacanga pra Câindo Reis,
Santa Bárbara pra Zé C’rilo,
Sítio do Apicum é de Furtado.
Pádua é dono do Anil.
Eu afirmei Zé Camão
na Perçoeira
e voltei, vim cantar
no lugar onde eu nasci.”
O boi ganhou mutucas exemplares, como o escritor Erasmo Dias, que morava na Madre de Deus. “Quando o boi descia na Ingazeira pra casa de Seu Satiro, eu começava a cantar. Erasmo era criança, ouvia batuque de matraca e fugia de casa. Ficava olhando pra minha boca, espantado, vestido de chambre”, recorda Igarapé.
DIRINDANA
Naquele tempo, na Madre de Deus era só matraca. O pandeiro quadrado, feito de caixa de sabão, foi invenção da lisura. Quem botava o boi era Otácio e Chico Bahiano, e só quem saía de rajado eram os donos do boi.
“Boi só pra brigar”, pois a história do bumba-meu-boi em São Luís é também a história das desavenças e contrapés entre os cornélios. Num embate lá para as bandas do Anil, Zé Igarapé derrubou seis soldados com uma palmeira de ariri. Era um gigante na trupiada e na briga.
De outra feita, ao cruzar com o Boi dos Carreiros, entre o Largo do Santiago e as Cajazeiras, Zé Igarapé foi golpeado no peito com um maracá pelo amo contrário. “Tirei a minha dirindana, um fio elétrico grosso enrolado de pano encarnado e azul. Dei uma tacada na costa dele e ele caiu se arrastando”.
Igarapé descreve que no dia da morte do boi da Madre de Deus eles diziam que morria gente, mas não morria o boi. “Teve bala, teve pau como o diabo”. Miguel Grande, que mandava no Boi de Santiago, pegou uma cacetada. Ouviu-se um tiro no canto do Hospital Geral. “Mataram Henrique!”
Dizem que foi o Miguel quem matou, “eu não vi”, assuntava.
Após esse crime, o boi passou dez anos sem brincar.
Mas Zé Igarapé não parou. Cantou pela Baixinha, Céu, Apeadouro e Bacanga, entre outros terreiros, até 1948, sem nunca negar fogo, como no primeiro encontro com Luís Barriga d’Água, no início do século. Luís provocou:
“Faca na cinta,
navalha aberta no pé.
Cacete de gororoba
na costa de Garapé.”
Zé Igarapé respondeu, improvisando:
“Te arreda da frente,
deixa eu passar,
que esse ano tu entra
pra respeitar.”
Segundo o velho cantador, “nesse tempo o boi só era bom quando se encontrava com outro e era cacete pra todo lado. Aquele que corresse não prestava. Agora não, tá tudo civilizado. É assim mesmo…”, lamentava-se.
PS.: Não foi combinado, mas Zé Igarapé, aposentado pela Fábrica Santa Amélia e praticamente cego, faleceu no dia 7 de junho de 1981, sete anos depois de ter sido entrevistado por mim, no mesmo dia e mês. (CT)

Graduado em Jornalismo, Luiz Antonio Morais é pós-graduado em Design Gráfico e Publicitário. Mantém o blog desde 2008, um dos mais antigos do Estado.





